Igreja de Nossa Senhora dos Remédios vai desmoronar



 Igreja de Nossa Senhora dos Remédios
 

Abandonada a várias décadas, o teto da igreja de Nossa Senhora dos Remédios está prestes a ruir. Se isso acontecer, seguramente o templo logo virá ao chão, sepultando a história de vários africanos que residiram em Cachoeira até 1913, quando faleceu o último africano cachoeirano. Até 1840, a igreja dos remédios, como é conhecida, era uma simples casa de oração. Vizinho a ela residiam o alfaiate Francisco Prisco da Costa, 24 anos de idade, filho de Prisco Francisco da Costa e Maria Porcina, solteiro, natural de Lagos, na África; a comerciante africana Guilhermina da Silva Coelho; o negociante africano Antonio Rodrigues Martins e sua esposa Julia Guimarães Viana, esta uma das fundadoras da Irmandade da Irmandade da Boa Morte; o africano Belchior Rodrigues Moura, plantador de fumo e traficante de escravos, sua esposa também africana Maria Motta, igualmente fundadora da Irmandade da Boa Morte, e seus filhos José Maria Belchior, conhecido como Zé de Brechó e fundador do Zô Ogodô Bogum Malê Seja Hundê, e Antonio Maria de Belchior, conhecido como Salacó, e também Antônio das Cobras, um dos fundadores do Ilê Axé Oxumarê Ogodô, de Salvador.
Foram esses africanos livres e libertos que em 1850 solicitaram ao Conselho Municipal e foram autorizados a reformar a antiga casa de oração e transformar na igreja de Nossa Senhora dos Remédios, passando a partir daí a sediar a Irmandade do Senhor dos Martírios. Além dos africanos economicamente emergentes acima citados, residiam na zona recuada da expansão urbana a maioria dos africanos cachoeiranos, principalmente ganhadores. A Recuada - que compreendia o Curral Velho, Rua dos Artistas, Alto do Rosarinho, Bitedô e o Galinheiro - era uma "pequena África", ou algo assim como o Largo da Barroquinha do tempo das africanas de keto que fundaram a Irmandade da Boa Morte soteropolitana e o atual candomblé da Casa Branca.
Em setembro, a Irmandade dos Martírios promovia a festa do seu padroeiro e conta-se que ao lado da igreja dos Remédios e aos fundos do quintal do sobrado onde funcionou o Bar 7 Portas tocava-se candomblé num terreno baldio onde havia um bananal. Esses "divertimentos de negros" ao lado de igrejas eram comuns durante festas religiosas católicas no século XIX. Os africanos angolas gostavam desses "divertimentos", mas o candomblé ao lado da igreja de Nossa Senhora dos Remédios eram "divertimentos" jêjes.
Até início dos anos 1980 os "divertimentos" existiam, mas não era mais candomblé no terreno baldio do bananal; sobreviveu apenas o caruru de São Cosme. O fechamento do ciclo litúrgico da Roça de Ventura, o Zô Ogodô Bogum Lalê Seja Hundê acima citado, que é um candomblé jêje mahi, ocorre com um delicioso caruru oferecido em homenagem a Ibeji, divindades mabaças representadas por São Cosme e São Damião. Ibejis (São Cosme e São Damião) são filhos de Sogbô e Oiá, e Sogbô é o rei (Bessém é o principe e Azonsur é o conde). No frontal da igreja dos Remédios, reformada pelos irmãos dos Martírios em 1850, como foi dito, têm a palma que representa o simbolo da Irmandade e a imagens de São Cosme e São Damião. Logo, a igreja de Nossa Senhora dos Remédio liga-se ritualmente, através do caruru de setembro, ao caruru do terreiro Roça de Ventura.
Imagine então mulheres africanas reunidas, sentadas no chão conversando em fon, ewe, ajá, iorubá e outras línguas africanas cortando quiabos, pilando camarão e amendoim para temperar o caruru da festa de São Cosme e Damião da irmandades da qual elas eram irmãs. E também africanos cortando galinhas e outras aves para outras afrcanas tratarem e cozinhá-las bem temperadas para acrescentar em generosos pedaços aos pratos de caruru que seriam servidos - como a feijoada da Irmandade da Boa Morte - no dia da festa a quem quisesse saboreá-los. Quando não foi mais possível realizar o candomblé no bananal, o "divertimento" passou a ser o samba-de-roda, que Dona Dalva hoje retrata muito bem com as suas sambadeiras vestidas de crioulas do partido alto, coisa que só Cachoeira tem.   
Agora templo católico jêje está prestes a ruir. Faz tempo que ele está ali abandonado, abrigando vendedores de passarinhos, que aos sábados cometem, à vista de todos, tão hediondo crime. O banco de pedra onde africanos sentavam para prosear, agora é local onde se depositam lixos domésticos. Bobosa dizia que aquele banco tinha axé, porque Zé de Brechó, Salacó e outros "baluartes" do candomblé que moravam no Largo sentaram ali, deixaram seu calor, peidaram naquele banco. Se desmoronar, será sepultado com os escombros do templo a história dos milhares de africanos de Cachoeira; a uma página significativa da história do africano no Recôncavo açucareiro e escravista baiano.


Banco de pedra assentada ao lado da igreja dos Remédios com a sombra de Cacau Nascimento


Quando dois pedreiros retiraram o portão de ferro antigo que dá acesso ao pátio da igreja, substituindo por outro feito de vergalhão, há uns cinco anos atrás, dizendo eles que foram por ordem do padre, este blogueiro oficiou o ocorrido ao IPAC. Logo o referido instituto de proteção patrimonial baiano respondeu dizendo que o referido templo não estaria sob sua responsabilidade. O IPHAN tirou também a seringa das nádegas. A Igreja...
O fato é que depois que retiram os objetos de valor, a igreja dos africanos jêjes de Nossa Senhora dos Remédios foi relegada ao abandono, como foi relegados ao abandono a igreja dos nagôs e o cemitério de africanos, também localizados na Recuada, e seguramente no seu lugar estariam hoje algumas casas construídas não fosse a intervenção de um tal Cacau Nascimento e de um tal Lu Cachoeira, que pediram ao ministro Gilberto Gil que incluíssem os dois patrimônios no Programa Monumenta. Saiu no Diário Oficial da Bahia a relação dos terreiros de candomblé cachoeiranos e sanfelistas que serão tombados pelo IPAC. A igreja de Nossa Senhora dos Remédios, a igreja dos Nagôs e o núcleo residencial da Recuada foram centros de irradiação da religiosidade afrocachoeirana. A maioria dos africanos que inventaram o candomblé em Cachoeira e São Felix foram sepultados no cemitério de Africanos, ou dos "Achatolicos". 


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