Coluna de Aidil


Maria sem vergonha



Maria era legítima sem vergonha, singelas flores parecidas com trevo, de cor rosa clara, rosa bonina, branco e, de nome maria-sem-vergonha. Tinha tantos orgasmos que passava mais tempo em êxtase flutuando entre um macho e outro. Um dia ela casou com um homem bem mais velho – não era rico - descartando a malícia alheia. O olhar libertino desapareceu e deu lugar a paz, tão igual ao mar sereno com águias sobrevoando sob um céu absurdamente azul.  A criança asilada num canto assombrada, se soltou no arre-burrinho, trepava em arvores, a mangueira mais alta era a  favorita,  subia infinitamente e ficava lá, camuflada nas folhas verdes, enquanto o pensamento vagueava por caminhos antes trilhado. Teve tantos homens que perdeu a conta. Não! não era prostituta, nem dessas mulheres insaciáveis, era apenas uma mulher de alma partida, daí trepava com  homens mais jovens que ela, com esperança de, quem sabe um abraço apertado, sem carinho que fosse, conseguisse colocar as coisas no lugar. Acordara inúmeras vezes muito depois de o dia ter chegado, ao lado de pessoas que nem conhecia, não lembrava sequer o nome, sentindo uma desventura tão aflita que se desvencilhava dos lençóis, sem tomar banho vestia-se, só queria ficar longe daquele sujeito, daquela Maria desencontrada. Invariavelmente andava pelo cais, parava e via o rio indo, levando Maria ao encontro de alguma lucidez. Num desses dias de olhar angustiado, contemplando silenciosamente o rio, conheceu Ruy, ele sentou ao seu lado e perguntou se estava tudo bem.  Ela?  caiu em prantos, chorou todas lágrimas que estavam lá num canto da infância, todos os orgasmos, todas as noites aflitas com pessoas desconhecidas, a solidão que sentia depois do corpo vibrado. Parou envergonhada, olhando o sujeito desconhecido;  já ia correr quando ele disse, não vá. Foi o - não vá - mais delicado, verdadeiro, que já ouvira em toda vida. Voltou mais confiante, sentou-se novamente e segredou as mágoas, culpas, quando terminou, era uma Maria serena. A vida lhe deu paz.  Abandonou a cabeça no ombro desconhecido e dormiu, consegui sonhar como só em criança, quando tinha pesadelos perto do dia dos pais, fazia desenhos na escola para dar ao pai numa esperança desvairada, sonhou com a luz - rosa clara, rosa bonina, branca. Não sabe quanto tempo passou, mas acordou com a cabeça ainda em ombro alheio. Casaram-se em um mês. Certa vez uma amiga disse-lhe que a sua prática sexual era tão intensa que já tinha quota para uns duzentos anos. Então, estava feliz. Gostava de mexer na terra, plantar angélicas, rosas, e as maria-sem-vergonha que ela não plantava, brotavam obstinadamente.        

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