Entre dois problemas


Sobrado que desabou inviabiliza empreendimento comercial






A preservação e conservação do conjunto arquitetônico de Cachoeira esbarra em dois problemas cruciais. O primeiro problema é que a maioria dos imóveis do centro histórico, a área da antiga vila, tem vários herdeiros e comumente um herdeiro espera que o outro herdeiro preserve e conserve e os demais usufrua. Resultado: ninguém arreda uma palha, o imóvel fica abandonado; abandonado deteriora, e, deteriorado, cai.

O segundo problema é que o poder público não toma medidas preservacionistas e conservacionistas do conjunto arquitetônico e paisagístico urbano da cidade. Ademais, o poder público municipal se recusa a dialogar e dificulta a atuação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Instituto do Patrimônio cultural da Bahia (IPAC-Ba) no município. Em decorrência dos problemas familiares e do descaso do poder público, alguns significativos edifícios do segundo mais importante conjunto arquitetônico colonial da Bahia ruíram ou estão prestes a ruir. 



A sede do Rotary Clube pede socorro porque pode a qualquer momento tomar um cascudo da parede ao lado e acima, ou uma deitada de lutador de sumô sobre seu telhado de vidro


Acresce a esses problemas dois outros de não menos importância. O primeiro, diz respeito à segurança. Corre perigo quem transita pela Rua 13 de Maio, na imediação do Cine Teatro Cachoeirano (CTC), onde três sobrados estão na iminência de ruir, como ruiu o edifício do CTC há três anos atrás e agora recuperado pelo IPHAN. Na Rua da Ponte Nova, outro sobrado por pouco não causou uma tragédia não fosse uma ação emergencial. Parte do sobrado desabou, mas a parte salva foi mal escorada e ainda oferece perigo a transeuntes.  Na Rua Prisco Paraíso o sobrado mourisco de Romário Costa Gomes, um autêntico Vaccarezza, desabou a fachada lindíssima.




Rua da Ponte Nova, na imediação do fórum Teixeira de Freitas e da sede da
 filarmônica Minerva Cachoeirana


Curiosamente sobrados aqui desabam à madrugada ou ao amanhecer, momentos em que ninguém está na rua, exceto o meu amado amigo Liva. Se desabassem a qualquer hora, teríamos alguns sepultados vivos na rua 13 de Maio, na Rua da Ponte Nova e na Rua Prisco Paraíso. E aí, certamente, o Ministério Público, que não atua no sentido de impor medidas de segurança à prefeitura, diria que a culpa foi da prefeitura e a prefeitura diria que a culpa foi do Ministério Público, porque esta não tomou medidas preventivas nem autuou proprietários dos imóveis em estado de ruína para garantir a segurança pública.




Rua 13 de Maio, ao fundo do CTC e da igreja matriz


O outro problema é o prejuízo material e outros prejuízos que tudo isso causa a quem não tem nada a ver com a lua, ou com o problema. O comerciante Val, do Armazém Souza, é um exemplo cabal de cidadão prejudicado pelo descaso e mais descasos dessa natureza.  Proprietário de uma casa comercial grande e sortida de secos e molhados totalmente legalizado, enxuto, sem culpa no cartório e sem dor de consciência, o empresário é também proprietário de um sobrado na Rua Prisco Paraíso, que ele está reformando e adaptando para estabelecer o seu Supermercado Souza. Porém (ah, esses porens!), Val se depara com dois problemas (mais dois, leitor).



"Casa Santa Rita" é o sobrado de Val; a fachada caída é o sobrado de Romário Costa Gomes, que é um autêntico Vaccarezza


O primeiro problema é o recorrente problema da gestão pública, e do gestor, que é comerciante, e como prefeito barra, dificulta, impede, tolhe, mete o pé no rim em quem ouse e ousa competir pau-a-pau com ele, que se acha o dono de Cachoeira. O outro problema  de Val é que o seu imóvel é vizinho, parede-e-meia com o imóvel do autêntico Vaccareza Romário, proprietário do sobrado mourisco que desabou a fachada no último domingo, e as paredes laterais logo vão desabar, de um lado sobre a sede do Rotary Clube de Cachoeira, e a parede lateral oposta cairá seguramente logo sobre a propriedade do comerciante Val, do Armazém Souza, que está agoniado para construir logo o seu tão sonhado Supermercado Souza (que vende as melhores carnes salgadas de Cachoeira, especialmente a carne do sol, e carne do sol com feijão verde é uma delícia!), como foi dito.

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