Coluna de Aidil


                                      Gato preto

Quando o mato já estava invadindo a casa – esgueirando por debaixo da porta, empurrando as folhas, os galhos - é que ela pegava da enxada.  A vida seguia com o olhar no horizonte - em busca de respostas. Às vezes um gato preto  aparecia, enroscava nos seus pés, lambia, ia subindo, lambendo todo o corpo, as brasas já quase virando cinzas eram acesas com madeira nova, demorava pra queimar, se fosse velha teria sido rápido demais – melhor assim – pensava. Levava tanto tempo parada que o beija flor pousava em seu ombro e ficava – bem quietinho, aconchegava, beijava, ia embora, mais sempre voltava -  quando dava vontade. Viu as passeatas, gritava pelos direitos das mulheres. – Igualdade! Queremos o direito ao sexo antes do casamento  - salários iguais – divisão das tarefas domésticas entre casais -   de ter o nosso próprio dinheiro. E conseguiu. Engenheira civil muito competente. Troféus que perdeu a conta, assim como dos homens que teve. Engravidou e, com dois anos de relacionamento deixou o companheiro – ele era muito machista. – Preciso fazer um cercado novo para as galinhas. Entre presente e passado cruzava os dias. – Como fui bonita.... – Olha-se no espelho que foi de sua avó – este já cheio de rugas pelo tempo  acentuava as suas. – Não era pra acabar desse jeito, as meninas que nem se importavam com a igualdade, aceitavam tudo - chorando pelos cantos -  estão bem casadas, casa cheia – filhos, netos, noras, genros – Não era pra acabar assim. Pegou a carta de cinco anos atrás  - as letras gastas de tanto ser lida. Foi no dia das mães, mas a carta chegou depois, lá pra quarta-feira. Mãe. Desejo um feliz dias das mães pra senhora, vou passar este dia em casa de meus sogros. Poxa mãe! Porque a senhora tinha que ser desse jeito? A senhora namorou um rapaz mais novo do que eu. Tô mandando a foto de Paulo – seu neto – ele tem três anos, se parece muito com a senhora. Mas ele precisa do convívio com uma família normal para o seu equilíbrio. Desculpe mãe. Eu te amo.      

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