Coluna de Aidil


             O dia que São João se perdeu na rua das mulheres da vida

João possui a simplicidade de quem não incorporou modos afetados, dissimulados de ser. Seu jeito espontâneo e direto é fruto da vida no campo, labutando com plantações, animais. Certo dia ele bebeu um pouco além da conta – é o que diz - estava em frente de casa, mas achou que estava no caminho errado, voltou e andou pela estrada até tantas da noite. Até que, num lampejo da memória, lembrou onde ficava a rua que morava e, encontrou a casa. Mas ele me diz - não é não dona, achei estranho aquele lugar e saí da via, andei, andei e, disse: meu Deus onde é minha casa? Foi então que lembrei que era no mesmo lugar que eu estava antes.  – Olhe!!! esse ano não vou pra festa de São João lá em Cachoeira, pois no ano passado eu tomei uns jenipapos e fiquei perdidinho da silva, quando dei por mim tava na rua das mulheres da vida. Segui o rio, não sei como eu andei e fui parar lá, na estação do trem, perto da ponte. Aí eu entrei numa rua e vi o banco. Dona! Que alegria! Ali eu sabia o caminho de casa. Desci reto, passei pelo supermercado e disse - tô em casa. Cheguei no mercado e tinha um carro lotado subindo pra Belém. Entrei. Quando vi já estava em casa, abri a porta e me larguei. Dormi por uns dois dias. Mas foi o licor de jenipapo; ele é tão gostoso que a gente bebe que nem sente e, depois da terceira dose perde o poder de nós mesmos, ficamos entregues. - É só alegria!!!.   – Esse ano, vou tomar meu licor aqui pela roça mesmo. Não desço não, dona. – Ouvi dizer que vai ter chiclete com banana. - Aí eu me afogo no rio. João continua – Se não morrer afogado, posso sentir uma dor no peito, aquela angústia não sabe? Quando vir que mataram aquela árvore tão linda!  Tantos anos ali, não fazia mal a ninguém dona, agora enterraram e, botaram cimento por cima. – A senhora sabe?  – tenho receio de não agüentar ver a maldade que os homens andam fazendo e ali mesmo ficar, mortinho da silva.       

Comentários

  1. Aidil Lima, você cada vez mais rítmica. Texto belo... Cachoeira precisa de mais literatura para que menos "joãos" caiam mortinhos, assim, por nada! Parabéns...

    ResponderExcluir
  2. Anônimo02:23

    Muito bom Aidil seu texto, ainda mais em época de Rio + ou - 20, pregamos tanto a preservação dos recursos naturais e ninguém ouça processar esse prefeitinho infame. Está faltando homem em Cachoeira.Rezemos para que nenhum mal aconteça a os cachaceiros de plantão nesse 25 de junho, onde o axé virará forró.

    ResponderExcluir
  3. William Pitanga00:34

    Aidil Lima, minha colega de ginásio, parabéns pelo excelente texto. Saudações!

    ResponderExcluir

Postar um comentário