Os Ganhadores de Cachoeira e São Felix

Para minha amiga Rita Santana, por seus relevantes serviços prestados à história de Cachoeira. Para o senhor Francisco Melo, grande memorialista e escritor cachoeira, in memoriam.


Em 1890, a Intendência Municipal de Cachoeira regulamentou a profissão de ganhador, uma forma de evitar as constantes brigas que aconteciam nos cantos de trabalho. O regulamento foi, em verdade, um reconhecimento e sistematização dos ganhadores que já trabalhavam organizadamente desde 1888, mas que se viram em constantes competições com trabalhadores proveniente de várias localidades do sertão e também do Recôncavo que chegaram a Cachoeira no pós abolição em busca de trabalho. Como todos sabem, com o advento abolicionista, ex-escravos precipitaram em fugas em massa para grandes centros comerciais baianos, entre os quais a cidade de Cachoeira.

Evidentemente, o Regulamento de 1890, que segue abaixo na íntegra, ensejou revoltas e disputas e despeitos porque todos queriam seus nomes oficializados como ganhadores. O leitor já ouviu, por exemplo, expressões, tais como: “aquele é um descarado de chapa batida”. Ao ler o regulamento o leitor entenderá a sua origem. O leitor deve também não levar muito em consideração o conteúdo dos 26 artigos, porque eles não eram fielmente cumpridos, como até hoje acontece com as nossas leis e regulamentos municipais. Veja, por exemplo, um documento da época:

“Diariamente nas partidas e principalmente nas chegadas dos trens, origina-se, na frente da Estação da Estrada de Ferro, grande ajuntamento de ganhadores, entre os quaes se formam conflictos, á porfia da qual será o feliz que possa obter um frete. Seria de alta conveniência estabelecer-se uma estação policial n’esse posto, assim obstar-se-hiam essas continuas desordens e as de que é foco a rua das Flores, onde diariamente há grande transito de gente de todas as classes”.

 É interessante notar o endereço dos ganhadores, sua procedência sobrenome e características físicas porque alguns deles possuem sobrenomes familiares. Alguns dados importantes que são necessários para a boa compreensão dos documentos aqui transcritos são, primeiro, que em Cachoeira e São Felix havia nove cantos de trabalho (ah, lembre também da expressão: “tava eu aqui quieto no meu canto...”). Eram eles: o canto da estação ferroviária (onde até hoje ficam os aposentados tomando “uma fresca”), outro na Rua Formosa (ao lado da Casa Aurora), mais outro rua das Flores (coincidentemente onde as carroças ficam estacionadas), outro mais no Beco do Bilhar (aquela rua em frente ao cais de embarque desembarque do vapor),

Na Rua de Entre Pontes (na esquina do Lobo da Cunha, onde atualmente é o fórum), um outro mais na estação ferroviária de São Felix, o da “boca” da Ponte de São Felix, Cais do porto de São Felix e o último da imediação do supermercado Isamar. Segundo, cada canto abrigava em torno de 20 ganhadores, divididos por idade e, quando africanos, por etnicidade. Ao todo eram 220 ganhadores. Não sei até quando vigeu o regulamento. Sei que no início do século XX o termo ganhador foi substituído pelo termo “Bagunheiro” (ou bagulheiro, ou carregadores de bagulhos, um termo utilizado para significar uma atividade vil). Nessa época, os jornais e documentos primários registram a atividade de carroceiros, que era exercido por negros de igual perfil dos ganhadores e “bagunheiros”, cujos veículos puxados à tração animal pertenciam às figuras importantes de Cachoeira e São Felix (Se fosse hoje, aqueles donos de carroça ses autodenominariam como “empresários do ramo de transportes de mudanças”).

Eis os documentos:

Regulamento...[rasurado] pelo Delegado de Policia, approvado pela Intendencia Municipal para ser executado como abaixo se declara

Art. 1. Fica creada n`esta cidade uma companhia de ganhadores, composta de duzentos homens de bom procedimento e que possua a capacidade physica necessária para o serviço a que se destina.
Art. 2. Esta Companhia será dividida em quatro turmas de cincoenta homens cada uma, sob as ordens de um chefe, tirado de entre esses, o qual, além de saber ler e escrever, deve ser maior de vinte e um anos.
Art. 3. Logo que haja causa que impossibilite a continuação do chefe, será sem demora nomeado outro pelo delegado de policia, usando logo o mesmo ganhador, registrando [rasurado] pelo chefe o signal para...[rasurado].
Art. 4. ..[rasurado] cidade pelo delegado de policia, de acordo com a conveniência do serviço e utilidade social.
Art. 5. Cada ganhador, logo que receber o volume, será obrigado a declarar ao dono do mesmo volume, em voz alta, o seu numero, responsabilizando-se assim pela sua fiel entrega.
Art. 6. O chefe da turma fica obrigado a passar mensalmente uma revista, afim de preencher as vagas dadas, quer por fallecimento, quer por mudança, quer por qualquer outra causa que determine a retirada de um ou mais de um dos ganhadores de sua companhia, de accordo com o artigo primeiro e com autorização do delegado.
 Art. 7. O ganhador que entrar tomará o número d`aquelle a quem for substituir.
Art. 8. Nenhum ganhador poderá mudar de turma, sem que para isso avise ao delegado de polícia e faça competente averbação no livro da manucipalidade.
Art. 9. Nenhum [rasurado] para permanecer em...[rasurado] sem conduzir uma carta de mudança dada pelo delegado de policia e visto pelo presidente da municipalidade.
 Art. 10. Pessôa alguma de fora d`esta cidade poder-se-há matricular como ganhador, sem que exhiba um attestado de bom procedimento, passado pela autoridade policial do lugar em que deixou de residir.
Art. 11. Nenhum ganhador será rehabilitado no serviço, se for preso por ladrão ou desordeiro, e não terá também direito á carta de mudança.
Art. 12. Para ser conhecido facilmente, o ganhador trajará calça de algodão azul, camisa branca e gorro preto a marinheiro, e trará sobre o peito esquerdo, em logar bem visível um...[rasurado] de latão de 0,09 m...[rasurado] vermelho o número da matrícula.
Art. 13. Nenhum ganhador poderá receber por cada volume mais do que o acostumado a pagar-se, conforme o estabelecido. Art. 14. É expressamente prohibido a qualquer individuo exercer a profissão de ganhador n`esta cidade, a excepção feita de quem estiver em serviço próprio ou a cargo de seus patrões. Art. 15. Todo ganhador que for encontrado em serviço sem o número e traje exigidos por este regulamento, será multado em cinco mil reis, ou três dias de prizão e no dobro nas reincidências, continuando, porém, a infringir o prezente artigo, será suspenso do corpo pelo espaço de três meses.
Art. 16. Na mesma pena incorrerá aquelle que usar de nome e número trocados.
Art. 17. ...[rasurado] a uma revista por qualquer autoridade policial em exercício que procure obter esclarecimento em bem da ordem publica e, annualmente, a uma revista municipal, para serem conferidos e fiscalisados no pagamento do imposto a que ficão sujeitos.
Art. 18. Incorrerão na multa de cinco mil reis, ou três dias de prisão, aquelles que, não tendo comparecido à vista, foram encontrados no exercício de sua profissão.
Art. 19. Todas as vagas serão preenchidas com as mesmas formalidades da primeira revisão na Secretaria da Intendência Municipal.
Art. 20. O chefe da turma será obrigado a participar ao delegado de policia o resultado...[rasurado].
Art. 21. Os chefes das turmas serão reconhecidos por uma tira azul de três centímetros de largura, circularmente cosido á manga esquerda de suas camisas.
Art. 22. Todo o ganhador será garantido em sua plenitude, quando exercer a sua profissão com respeito e ordem.
Art. 23. Os ganhadores são obrigados a respeitar e guardar certa obediência ao seu chefe no exercício de suas funções.
Art. 24. São obrigados a prender, com o auxilio dos seus companheiros, a qualquer que transgredir este regulamento.
Art. 25. Tem os ganhadores direito a se queixarem á autoridade policial, sempre que soffrerem lesão em seus interesses.
Art. 26. Este regulamento será reformado todas as vezes que o delegado de policia, de acordo com a municipalidade, achar conveniente, ou a utilidade publica exigir para o bom andamento social.

Retificação do artigo vinte, feito à margem do documento:
Artigo 20. Os chefes das turmas seram obrigados a participar ao delegado de policia, não só qualquer occorrencia que nas mesmas se tenha dado e que perturbe a boa marcha do serviço, como ainda o resultado das revistas alludidas no artigo 6.

“Matrícula dos ganhadores d`esta cidade procedida de accordo com o regulamento approvado em sessão de 20 de março de 1890”

Germano Barroso, analfabeto, solteiro, 55 anos, natural da Costa da África, filiação desconhecida, lavrador, altura regular, cheio de corpo, barba regular, usa cavanhack, morador do Curral Velho, 20. Antonio Cesario da Costa, alto, alfabetizado, corpo e barba regulares, 50 anos, solteiro, natural da Costa da África, filiação desconhecida, morador da rua dos Remédios. Tiberio Baptista, alto, alfabetizado, corpo regular, pouca barba, falta um dente na parte superior, 50 anos, solteiro, filiação desconhecida, natural da Costa da África, sem discriminação de residência. Simão Milhazes, altura e corpo regulares, pouca baba, 68 anos, natural da costa da África, filiação desconhecida, residente na Rua das Flores. Patrocinio Milhazes, baixo, pouco corpo, barba regular, 68 anos, solteiro, africano, filiação desconhecida, morador na rua do Moinho [Pitanga de Baixo] Olympio Milhazes, altura e corpo regulares, pouca barba, 78 anos, solteira, africano, morador na Rua do Sabão. Eduardo Baptista, baixo, pouco corpo, pouca barba, 65 anos, solteiro, africano, morador no Engenho do Rosário. Henrique Borges, baixo, corpo regular, pouca barba, 60 anos, solteiro, africano, sem residência. Lazaro Meireles, baixo, corpo regular, pouca barba, 58 anos, solteiro, africano, morador no Curral Velho. Luis Bacellar, baixo, cheio de corpo, barba regular, 68 anos, solteiro, africano, residente no Curiachito. Francisco Lima, altura e corpo regulares, pouca barba, 78 anos, africano. Germano Mendes da costa, alto, corpo regular, barba regular, 60 anos, casado, naturalk da costa da África. Zacarias Pacheco de Miranda, baixo, corpo e barba regulares, 70 anos, africano Alberto Antonio da Costa, analfabeto, casado, 56 anos, natural de Conceição da Feira, sem profissão, alto, morador do Curral Velho. Gustavo, analfabeto, solteiro, 30 anos, natural de Belem , sem profissão, baixo, morador da Rua do Sabão. Theodoro Antonio Alves, analfabeto, solteiro, 40 anos, lavrador, baixo, morador da Rua da Lama. Odorio Machado da Silva, analfabeto, solteiro, 25 anos, natural de Santo amaro, preto, lavrador, alto, morador na Rua de Belchior [Rua dos Remédios]. Marcolino, analfabeto, solteiro, 25 anos, natural de Santo amaro, crioulo, lavrador, baixo, morador do Curral Velho. Leoncio Bispo Barbosa, analfabeto, solteiro, 25 anos, natural de Olivença, preto, lavrador, alto, morador do curral Velho. Joaquim Santas da Costa, analfabeto, soleiro, 25 anos, natural de Pedrão, crioulo, lavrador, morador do Galinheiro [Rua Julião Gomes]. Manoel Domingues do Espirito Santo, analfabeto, solteiro, 22 anos, natural de Igreja Nova, preto, baixo, morador na Rua da Lama. Amancio João Gregório, analfabeto, solteiro, 34 anos, natural de Acupe, cioulo, lavrador, baixo, morador do Curral Velho. Lucio de Britto da costa, analfabeto, solteiro, 36 anos, natural de angical, crioulo, sem profissão, alto, morador na Rua do Remédio. Manoel Sabino de Araujo, analfabeto, solteiro, 20 anos, natural de Bonfim, crioulo, lavrador, alto, morado do Galinheiro. Manoel, analfabeto, solteiro, 25 anos, natural de conceição, sem profissão, alto, moradora do Corta Jaca. Gregório José Ferreira, analfabeto, solteiro, 44 anos, natural do Piauí, preto, ferreiro, alto, morador da Rua do Sabão. Spiridião Alves Ferreira, analfabeto, solteiro, 25 anos, preto, lavrador, baixo, morador da rua da Faísca. José Gonçalves da Silva, analfabeto, solteiro, 40 anos, natural de conceição, preto, lavrador, baixo, morador do Curral Velho. Manoel Francisco dos Santos, analfabeto, solteiro, 25 anos, natural de Santo amaro, crioulo, sem profissão, mdiano, morador da rua do fogo. Concordio Ribeiro, analfabeto, solteiro, 28 anos, natural de Feira de Santana, pardo, sem profissão, altura mediana, morador da Rua do Fogo. José Antonio Ferreira Borges, analfabeto, solteiro, 50 anos, natural de Imbira, crioulo, lavrador, alto, morador na rua dos Artistas. José Romão dos anjos, solteiro, 35 anos, natural de Rio de Contas, crioulo, lavrador, baixo, morador na Recuada.

Comentários