OPINIÃO

DEUS E O PREFEITINHO


Por David Dias do Nascimento

David é filho de Cokito, engenheiro mecânico, mestre em Recursos Humanos pela FGV, consultor, empresário, maçom e leitor assíduo deste blog. 




















E Deus, em Sua Magnânima Onipotência, ordenou:
- Agora passarás a governar. Governa, prefeito!
- Perdão, Senhor?
- Governa prefeito!
- Senhor, não estou certo de ter ouvido bem.
- Eu disse: governa, prefeito!
- Senhor, com todo o respeito, eu, humilde criatura de Vossa benevolente lavra, sou um prefeitinho. Como pretendeis que eu agora governe?
- Se Eu disse governe, governe!
- Talvez estejamos diante de um problema de semântica. O Senhor certamente quer dizer… o que é mesmo que um prefeitinho faz?
- Cuida do orçamento municipal, cuida da saúde e da educação destes pobres sofredores, mas hoje Eu quero que governe.
- Senhor, quem sou eu para colocar em dúvida qualquer ordem ou palavra Vossa, mas perdoai minha grande ignorância: como é que se governa?
- Apenas governe, te ordeno.
- Bem, vamos lá… Senhores e senhoras prometo…
- Isso é enganar. Eu disse governe! Tu és um governante!
- É claro que não, apenas um pobre prefeitinho, que outra coisa não aprendi na vida que…
- Pela última vez: GOVERNE!
- Senhores e Senhoras, prometo cuidar do meio ambiente, das crianças…
- Não! Promessas, não! GOVERNE!
- Por Deus, Senhor. COMO É QUE SE GOVERNA?
Deus suspirou, sacudiu a cabeçorra e disse: - Essas minhas criaturas! Onde foi que Eu errei?
Terá sido no processo de escolha no diretório e eleição municipal, ou acreditei nos discursos vazios deste déspota despreparado? Deus, como o Magnânimo do Universo, não parecia estar contente com o próprio fruto de Seu trabalho. Tanto é que um dia resolveu eleger Noé e acabar com o resto da humanidade, num processo de downsizing bastante abrangente. Não se pode dizer que ele livrou a grande terra dos malditos mentirosos e enganadores dos seus filhos, porque, na verdade, o que Ele produziu foi um dilúvio que reduziu a níveis insignificantes alguns perniciosos e políticos maldosos e gananciosos do planeta a níveis desprezíveis. E olhem que ele não tinha que prestar contas a nenhum board, no máximo ao Filho e ao Espírito Santo, o que não era muito difícil, porque os Três eram a Mesma Pessoa.
Mas analisemos o caso.
É justificável que Deus, pelas atribulações normais de um Comandante de rigorosamente tudo, estivesse com a cabeça cheia de problemas e pudesse deixar escapar algum detalhe, como por exemplo, que prefeitinhos não foram feitos para governar? (Ele mesmo, como responsável pelo projeto, teria designado os atributos do produto, não é mesmo?) Tratando-se de Deus, o Supremo CEO _ Chief Executive Office, o Líder Máximo, o Perfeito - conforme aprendemos desde crianças - não se poderia pensar nessa hipótese. Onde estaria, então, o erro?
É claro, o erro pode estar em nós mesmos, que pensamos que prefeitinhos podem governar, um paradigma firmado em nossas mentes, condicionando nossas crenças. Crenças essas que devemos abandonar, em nome de uma visão mais estratégica dos fatos. E o erro pode estar, ainda, no próprio prefeito, que nunca foi avisado que, forçando um pouco a barra, "acreditando mais em si mesmo, tendo fé, aumentando sua auto-estima", bem poderia sair por aí governando lindamente, como as aves de minha terra, que gorjeiam mais lá do que cá. Mas, oh, destino cruel, esse prefeitinho tão novo, não sabe que pode governar. Por que não acredita em Deus, seu bobinho? Você não sabe do que é capaz!
Assim como o prefeito, é claro, podem governar, todos os eleitores podem se tornar super-heróis, modelos de competência e competitividade, num passe de mágica. Não é isso que nos sugerem todos os dias? Ou se tornam onipotentes, ou estarão fadados à extinção, como se diz na lógica fria e implacável da teoria da seleção natural de Darwin, ou do mercado. Assim, você presencia uma multidão de eleitores agredindo sua natureza, comprometendo sua qualidade de vida e de suas famílias, sendo levados a acreditar que precisam de governantes e que terão nas mãos os instrumentos necessários para fazê-lo, ou sentindo-se cada vez mais culpados por não passarem de Clark Kent, o Super-Homem em ritmo de supervelocidade.
Se você é um prefeito e está tentando governar, pare e pense. Ser "quem você é" representa, ao mesmo tempo, o maior desafio e a maior conquista. Mergulhe profundamente em sua natureza de seus valores e ética, descubra o governante verdadeiro que traz em si - qualquer que seja ele, mas eticamente voltado para os problemas da sua terra.
E, a respeito do impasse divino relatado no início e que nos levou a esse tema, há outra solução que pode fazer com que o prefeitos governem. É concluir que ele, pasmem, não é um Presidente - nem Governador, nem Deputado Federal, nem Deputado Estadual. Ele foi, a vida inteira convencido que é um prefeitinho, mas não é. Hoje Deus, na verdade a sociedade com seus padrões de julgamento sociais, exigem que ele governe. Se ele se enxergar como uma criatura divina, ou mesmo humana, e respeitar sua natureza universal, ele poderá governar, prometer, cumprir ou realizar qualquer outro objetivo, porque ele não estará tentando obedecer à cega e restritamente a uma ordem que ele não sabe de onde veio, ou porque veio, ou mesmo o que quer dizer. E qualquer coisa que faça, será a mesma coisa, ou seja, um fruto autêntico de suas possibilidades e riquezas.
Se usasse sua capacidade de livre arbítrio, tão apregoada pelos homens como concessão de Deus, ou de suposta escolha democrática, tão difundida por nossas instituições, para jogar o jogo certo, ele interpretaria de melhor forma a solicitação sagrada. Assim, talvez o diálogo de Deus com o prefeitinho fosse outro, mais ou menos assim:
E Deus, em Sua Magnânima Onipotência, ordenou:
- Agora passarás a governar. Governa, Prefeito!
- Perdão, Senhor?
- Governa, Prefeito!
O Prefeito faz uma grande promessa.
- Isso não é governar, eu disse go-ver-nar - observa o Altíssimo.
- Eu bem sei que o Senhor sabe que é esse o meu modo de governar. Ele se expressa em Vosso louvor, como a realização da minha felicidade e da minha natureza. Aceite isso como a minha prece mais sentida; minha gratidão mais profunda pela força concedida a meus músculos; minha agilidade e minha produção mais eficiente. Vós, Senhor, Autor de todos os conceitos, entendo agora, podeis dizer governar, que, no meu caso, quer dizer cuidar destes pobres e infelizes cidadãos de minha terra. Quantos interpretaram Vossa palavra ao pé da letra e saíram fabricando o que aí está. Eu quero mais, Senhor. Quero oferecer o melhor governo que eu puder, encantar a vida com minha experiência e ser por ela encantado, pela divina diversidade da criação.
E Deus sorriu.

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