O FEITIÇO E O FEITICEIRO





Na última visita que meu amigo e compadre Brice Hippolité Sogbose fez a Cachoeira, ele comentou , enquanto almoçávamos, a morte trágica e inesperada de sua prima. Ele me disse que sua prima violou uma tradição religiosa de seu país, o Benin, segunda a qual o sacrifício animal realizado nos ritos fúnebres só pode ser oficiado pelo membro masculino e mais velho da família. Ela morreu porque violou a tradição, fazendo ela mesma o referido ritual.


Conheci-o em 1995, quando ele chegou ao Brasil vindo de Cuba, onde fez mestrado em lingüística, estudando os falares africanos naquele pais de expressiva tradição cultural africana e muitíssimo influenciado, como o Recôncavo baiano (Cuba é mais ou menos a população da Bahia), pelos povos beninenses, aqui, como lá em Cuba, denominados Dahomeanos e/ou jêjes. Brice soube de mim através de Marcio Goldman, professor do Museu Nacional. Eu e Marcio nos conhecemos por interesses acadêmicos comuns, nos falamos, mas não nos conhecemos pessoalmente. Entretanto, Brice falou comigo como um pedido de Marcio para facilitar sua pesquisa de doutorado, que seria realizado em parte nos terreiros de candomblé Cachoeira.

Na companhia de meu compadre aprendi muito sobre os jêjes, sobre o idioma fon e a tradução de várias músicas cantadas nas festas de candomblé. Rimos bastante quando o vodum manifestava numa pessoa exatamente quando a letra da música não estava dizendo nada relevante, e quando a música era propícia para a manifestação do vodum, as vodunsis saiam indiferente para fumar um cigarro ou “tomar uma fresca”. Foi nesse momento que descobri que existem muito b`ekó (bocó, em cachoeirenês) e fatolus no candomblé, figuras metidas a babalorixá e iyalorixá, mas que o galo tá cantando e não sabe onde.

Estou a falar sobre meu compadre africano e a história de sua prima porque vez e outra aqui em Cachoeira a gente se bate com um cabra envolvido no xale da doida porque mexeu com o que não sabia. Existem muitos b`ekó metido a pai de santo, que pensa que candomblé é feitiçaria e babalorixá/iyalorixá é feiticeiro/feiticeira. Ledo engano. Atentemos para o que diz Hampaté Ba: “Deve-se ter em mente que, de maneira geral, todas as tradições africanas postulam uma visão religiosa do mundo. O universo visível é concebido e sentido como o sinal, a concretização ou envoltório de um universo invisível e vivo, constituído de forças em perpétuo movimento”.

Frequentemente nos deparamos com um ebó (sacrifício) depositado em encruzilhadas e esquinas. Há situação em que certos b`ekó, esses que comprometem a dignidade do candomblé enquanto religião, depositam suas maluquices sem considerar que ao lado tem uma igreja católica, pentecostal, presbiteriana, o que representa falta de respeito e intolerância religiosa. O candomblé não aceita o axioma “ do olho por olho, dente por dente”.

Vemos pegadores de gado revestidos de sacerdotes realizarem sacrifícios animais em qualuqer lugar, a qualquer hora, o que é um crime porque não são ritos propiciatórios realizados com a devida fundamentação religiosa. E o pior de tudo isso é que as conseqüências são imprevisíveis e irreversivelmente trágicas. Como a prima de meu compadre, o feitiço cai sempre cai sobre o próprio feiticeiro. Isto porque, contrario do que pensamos, um sacerdote/sacerdotisa do candomblé não manipula forças do mal, energia das trevas. Além disso, mais de 80% do que se atribui ao candomblé e seus praticantes não fazem parte da sua cosmologia e ritualidade. São práticas religiosas pagãs e rurais da Europa medieval, introduzidas no Brasil pelos portugueses (o feitiço, por exemplo). A  idéia de mal e manipulação de forças diabólicas resulta, pois, de uma retórica epistêmica introduzida e incutida no nosso imaginário através da Igreja Católica Apostólica Romana. Não é da religião africana.

O que um sacerdote do candomblé faz é manipular forças que possibilitem a comunicação entre os dois planos da existência humana - o aiyê e o orum; o homem e a divindade), de acordo com o que Hampaté Bá afirmou na citação acima. O candomblé é a única religião do mundo em que um simples mortal é divinizado e reverenciado como tal.

Com efeito, o feitiço sempre se voltará contra o feiticeiro quando desavisadamente invocamos as divindades africanas para resolver nossas pendengas políticas, econômicas, afetivas, etc. Vodum não se envolve com essas coisas. Nenhum sacerdote do candomblé está autorizado a manipular energias cósmicas para acobertar corrupção, fechar corpo de bandidos, dar a sorte a um azarado. Candomblé é culto às divindades míticas (os orixás) e às divindades sociológicas (os éguns, os ancestrais). O resto é feitiçaria, magia negra, coisa da Europa medieval.

Comentários

  1. Anônimo11:17

    Isso você tá dizendo,prá quem ? Prá você mesmo,é?

    ResponderExcluir
  2. Anônimo13:53

    Olha o caso de um faltoso professor da rede estadual da nossa cidade, fez tanto feitiço q acabou querendo se matar e as porra! Ambição, meu bróder! Tudo por qnt da grana. Ele queria mais e mais...Qnd a IDEIA tava ficando fraco, o homi enloqueceu.

    ResponderExcluir

Postar um comentário