Micropoderes

Michael Foucault nos dá preciosas lições quando em suas obras filosóficas diz que o poder não está localizado num lugar específico, ou é exercido individualmente. Invertendo os termos, ele diz que o poder é coletivo, está presente em todos os setores. Para quem gosta de hierarquias, os caboclos do candomblé e da umbanda, que para os espíritas kardecistas são entidades em estágio intermediário de evolução espiritual, oferecem também lições de profunda sabedoria quando num “ponto” de gira, ou sotaque, diz que “escorregar não é cair. É só um jeito de corpo”. 

Antes de Foucault, algumas sociedades africanas já percebiam e estruturavam filosoficamente suas religiões a partir da crença segunda a qual o Ser Humano é arquétipo de um ente divino,  e que a força dessa divindade pode ser “plantada” no ori – a cabeça – do indivíduo através de ritos iniciáticos específicos, força essa denominada axé.

O velho Karl Marx também aconselhou que é sempre de bom alvitre que não propaguemos quem somos, o que somos, o que temos. Mas que o Outro o descubra por ele mesmo.

A moral filosófica destas assertivas pode ser resumida numa simples oração: não subestimemos o Outro – respeitemo-lo. Não nos sintamos detentores de poderes exclusivos, socialmente superiores do que o Outro, hierarquicamente privilegiado e senhores dos saberes. Se agimos assim, somos pela diversidade, ajudamos a combater a não aceitação das diversidades, que é a base sob a qual se sustenta o preconceito. EU + TU = NÓS, nisto se resume a equação social.

Com efeito, os ímpetos arrogantes, as piadas, as depreciações, a bazófia, as desqualificações e depreciações morais emudeceram ante a crise institucional (com seu efeito moral) que se abateu em Cachoeira. Sob o sol de Cachoeira instaurou-se um sepulcral silêncio. Foram abatidos pela própria prepotência com que as instituições eram por eles tratadas. Habituamo-nos a criar juízos de valor a partir de um olhar superficial sobre o Outro (veja a língua portuguesa como um caso exemplar. Pela forma do outro falar sabemos a sua posição sócio-cultural), e conformamos os espaços de acordo a condição social do indivíduo. Imaginemos, por exemplo, o Caquende, Três Riachos, Recuada. 

No centro desses `enclaves` sociais, destacam-se em contrastes com as casas vernaculares suntuosos  (hoje em dia nem tanto) sobrados erguidos por senhores de engenhos e grandes comerciantes no período em que a Vila de Nossa Senhora usufruía o status de grande centro portuário, açucareiro e fumageiro baiano. Em 1818, os naturalistas alemães von Martius e von Spix a comparou com alguma notável cidade européia. Naquela época eles perceberam já que a então a portuguesa vila de Nosa Senhora do Rosário de  tantos pretos era dividida pelo lugar do branco, pelo lugar do branco pobre, pelo lugar do preto livre e  pelo lugar do preto escravo. Hoje a cidade continua conformada da mesma forma como no tempo dos citados alemães. Com seus foucaultianos micropoderes, contudo. 

É porque esses micropoderes são imperceptíveis no âmbito político local que de vez em quando o desavisado cabra, se achando o dono do poder, o bam-bam-bam do pedaço, o long dong, toma no kéu sem ajustar. É a partir desse raciocínio que devemos entender por que hoje o cabra tem 85% de aceitação eleitoral e, amanhã, como numa queda na bolsa de valores, descamba em queda livre, para 0,85%. 

Portanto, pensemos no termo ‘micropoder’ quando nos arvorarmos a cooptar pessoas. Pensemos nos caboclos e na estrutura filosófica das religiões africanas. Pensemos em Hitler! Porque pode ser que o encardido, o preto, o pobre, o feio, o periférico, o lenhado que nós desqualificamos possua uma arma mortal que nós não conhecemos porque ele nunca expôs, e também porque podemos nos surpreender  om algo que  não sabíamos que ele tivesse, soubesse, fosse capaz de saber. Devemos levar fé no Outro. O gato nunca mostra as unhas.

Comentários

  1. Anônimo20:43

    De historiador para historiador:

    http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/cotas-raciais-uma-reportagem-intelecutual-e-jornalisticamente-criminosa/

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  2. Anônimo23:54

    De historiador para historiador (2):

    http://fiel-inimigo.blogspot.com/2009/12/nao-se-deve-falar-na-presenca-de.html

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  3. Anônimo10:38

    De historiador para historiador 3 (não precisa publicar):

    http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/os-comuno-fascistas-estao-com-sede-e-querem-um-copo-de-sangue/

    A liberdade de expressão está em risco. O totalitarismo está chegando. E todos podem ser vítimas. Começa contra alguns e termina contra todos. O stalinismo e a revolução cultural maoista começaram assim. Amanhã, cada um terá de ser um dedo-duro por medo de não ser dedurado. Isto é o socialismo. O resto é demagogia.

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