PROVINCIA DA BAHIA COMMARCA DA CACHOEIRA


DESCRIPÇÃO DO MUNICÍPIO DA CACHOEIRA
C. Mascarenhas
Engenheiro civil

Cachoeira, 17 de Agosto de 1887

Ilmo Sr

Devolvo a Vª Sª orçamento para abastecimento à esta cidade preparado pelo Sr Engº Affonso [Antonio Glicério] Maciel, que foi remetido a minha apreciação. E cumpre em declarar que não sendo um orçamento definitivo e dados de calculo não se pode avançar a mais, o que só poderá depois de deliberado o seu estudo definitivo conforme tratou o mesmo meu collega.
Deus guarde V. Mce.
Ilmo Sr Presidente Antonio Lopes Carvalho Sobrinho.
C. Mascarenhas.


HISTORIA
Em 1611 a 1621 era ainda as margens do rio Paraguassú por onde desciam os índios das tribos Tapuas [tapuias], tupinanbás e payayases para assaltarem os moradores civilisados na parte mais próxima do litoral. Quando em 1646 sendo governador o Conde de Castello-Milhor foi enviado o Capm Gaspar Rodrigues Adorno em espedição contra os mesmos índios. E como recompensa aos seus arriscados trabalhos foi lhe doado 4 leguas de terras d’uma a outra margem do mesmo Rio, na qual comprehendia os ribeiros caquende e pitanga.
Vindo em 1654 o Capm João Rodrigues Adorno, seu filho, nascido a 24 de julho de 1624, a fichar sua residência, já encontrou alguns moradores disseminados d’uma de um e outro lado do ribeiro do Caquende.
Reconstruiu em 1763 d’uma pequena ermida que era a Capella de N. S. do Rosário que servio de Matris, e actualmente é dedicada a N. S. d’Ajuda, tomando-se notável esta capella pelo solidez da construcção e exagerada grossura de suas paredes, sendo por dentro de uma d’ellas a passagem para o púlpito.
Com igual solidez construio o mesmo Adorno em 1678 um sobrado acastellado para sua residência, a qual ainda existe em bom estado.
As águas do ribeiro Pitanga qua alimenta o actual chafaris, passava n’quelle (página 6) tempo em bicame de madeira.
Era o Capm João Rodrigues Adorno o mais abastado e rico proprietário dotado de boas qualidades e bastante considerado, falleceu a 4 de janeiro de 1746 com 119 annos de edade.
Desenvolvendo a população foi em 1796 creada a freguesia de Nossa Senhora do Rosário e continuando em progresso successivo pela riquesa de seu solo e fácil communicação foi elevada a Vila da Cachoeira em 7 de janeiro de 1798 e installada a 24 do mesmo mez e anno.
Manifestando o governador Madeira rancor e perseguição para com aquelles que desejava a emancipação foi quando a convite por officio do Corel da Cavalaria Milician\ José Garcia Pacheco e do Corel agregado Rodrigo Antonio [Brandão] Falcão reunio-se a 25 de junho de 1822 a Cammara Municipal sob a presidência do Juis de Fora Antonio de Cerqueira Lima, Veriadores Corel Jerônimo José Albernaz, Capm Antonio Castro Lima, Joaquim Pedreira do Couto Ferras e Procurador Manoel Teixeira d’Assis.
E por elles foi dito que tinhão convocado a Cammara e autoridades afim de que com o Presidente da mesma aclamas-se S. A. Real o Príncipe D. Pedro Regente e Defensor Perpetuo do Reino do Brasil pela forma que foi aclamado na cide do Rio de Janeiro.
O que ouvido e acceito, dirigio-se o Presidente e veriadores as janellas do Paço Municipal e por seu Procurador pro (página 7) posto ao Povo e Tropa composta da Cavalaria miliciana e infantaria tendo como chefe José Bacellar, que se achava formada nas praças, presente o Capm-mór José antonio Fiusa, foi unanime acceito e proclamado, ficando a Cammara encarregada de dirigir uma representação ao Príncipe Real D. Pedro a que fez em 13 de julho de 1822.
Respondendo S. A. Real satisfatoriamente, congratulando-se com a Cammara e patenteando seu reconhecimento.
Inteirado o governador Madeira de semelhante occorrencia e resolução mandou com destino a Cachoeira para supplantar o Povo, uma escuna com um come e 28 tripulantes, que chegando foi combatida e intrepidamente abordada depois de 3 horas de combate.
Da Cachoeira partio grande quantidade em seguida aos acontecimentos a unir-se e auxiliar aos da Cidade de S. Salvador no seu feito histórico do dia 2 de julho de 1823.
Ao passo que os Cachoeiranos tratavão de sua emancipação política, não de descuidavam da Caridade, pois já em 1729 o Capm João Rodrigues Adorno e sua mulher [Ursula de Azevedo] fazia doação de 60 braças de terras a margem esquerda do ribeiro Pitanga a Antonio machado de N. S. de Belém para fundação d’um hospital que este intentava por mais conveniência transferir de S. Franco do Paraguassú para esta actual cidade, o que effectuou (página 8) e funcionou em 1734, cedendo à 23 de julho de 1756 aos padres da Ordem de São João de Deus, com esta invocação e termo assignado pelos frades Izidoro José do rosário, José de S. Anna Segna, João Thomaz Castro e Antonio de N. S. de Belém.
Outra concessão de terrenos fez o mesmo Adorno aos Carmelitas Calçados para o seu hospício em meiado do século XVII.
Passou a cidade em [13 de março de] 1837 com a distinção de Heróica.

ASPECTOS GERAES
Montanhoso da parte do Sul a Leste, coberto com varios pontos de boas matas.
Ao Norte e Oeste em terreno onduloso coberto de vegetação rasteira acantigada e de alguns bosques, sendo regado por alguns Rios e outros mananciaes.

SERRAS
A parte montanhosa do Município é formada pela serra Timbóra que segue a direcção de NE a SSO. A da Conceição a N a S. E a do aporá a de NO a SE.

RIOS, ILHAS E LAGOAS
Dos que regam seo território o mais notável é o Paraguassú único navegável por navios de pequeno calado até a cidade da Cachoeira 40 kilometros da sua foz e por canoas em grande extensão com interrupção de vários saltos. Nasce no centro e com a direção de NO a Se desemboca na baia de Todos os Santos, recebendo na parte que atravessa este município diversos tributários, alguns com denominação de Rio, que so corre durrante a estação das chuvas, sendo os mais (pagina 2) importantes Pratigy, Crumatá, Jaquipe [Jacuípe].
Rio Acupe de pouca força, porem sempre corrente, nasce no Município de S. Gonçalo e depois de passar n’este com a direção de NO e SEE desemboca na bahia de Todos os Santos.
Há no rio Paraguassú algumas ilhas, sendo principaes do Capim pela sua população que vive da pesca [colônia de pescador] e pequena lavoura, e outra nas proximidades da Cidade aproveitada por um industrial em salgadeiras de couro.
Há algumas pequenas Lagoas.

SALUBRIDADE
O município é geralmente salubre, manifestando-se, porem endemicamente em certas epochas do anno febres intermitentes e disenterias, cujos effeitos as veses, devem ser attribuidas menos a intensidade e a gravidade d’esta moléstias, do que as differentes condicções de vida dos habitantes. A varíola assume em um ou outro anno um ligeiro caracter epidêmico, e se manifesta em todas as localidades, sem assumir todavia as proporções de um verdadeiro flagelo.
Em 1850 foi invadido pela febre amarella, vulgarmente conhecida neste (página 3) tempo pelo nome de vomito-preto, e em 1856 pelo Cholera-morbus, com todo seu cortejo de terrores e devastação, victimando em cerca de 90 dias grande parte da população.

MINERAES
Os mineraes mais conhecidos são o diorito e argilas, chamada barro d’Olaria e saibro excellente agente na argamassa de construcção.
Suppoem-se haver ouro e diamante, pois em algumas investigações tem-se encontrado estes mineraes.
Da Serra da Conceição foi concedido um privilegio para a exploração de ferro sem que se saiba qual o seu motivo e resultado. Nas proximidades d’esta serra existe um pântano, cuja lama presta-se com vantagem a tinturaria de couros.

MADEIRAS
Há varias esperies de madeiras, sendo as principaes de construcção aroeira, baraúna, itapicuru amarello e rocho, pau d’arco ou ipê, piquiá, jitay, amora, amargoso, carrancudo,, pau d’oleo, , pau ferro, araiba, claraiba, pereira, jiquitiara, potumujú, sucupirassú, sucupiramirim, cabocoro, louro, paraíba e taipoca, e de madeira de marcenaria jacarandá, jacarandá-pitanga, pau-de-fuso, umburana, gonsalo-alves, genipapo, vinhático e cedro. (página 4)

ANIMAIS SILVESTRES
Caetitu, viado [sic], paca, guará, coelho, mocó, preá, tamanduá, raposa, sarué, saguim, macaco, gato [do mato], kagado, teiú.
Aves: perdiz, codorna, inhambu, gachaduva, jacu, zabelé, araquém, ema, siriema, papagaio, periquito e pombas de diversas qualidades, cantoras sabiá, pêga, cardeal, gaturama, curió, azulão, corrupião, canário, patativa, cabocolinho e coleira.
Peixes: o rio fornece diversas qualidades sendo as principaes pampo, carimam, tainha, pescada e arraia que do mar investem nas águas com o influxo das marés, e como creação tem piau, pratiapuá, jundiá, piranha, cramataí, piaba, bagre, traira, acary, combá, roncador, rouba e petitinga ( especialidade) (sic).
Insectos: entre elles o de mais importância e utilidade é a abelha que na sua diversidade são as que melhor mel e cêra fabrica a jitay, urucu, caruara, mumbuca, mundury, tuby, mandasaia e a rapuá que de seu resíduo e mel applica-se com vantagem nos casos de hydropisia.
(página 5) Existe entre os insectos o Grillo e a saúva mui prejudiciaes a plantação.


TOPOGRAPHIA
A cidade está situada a margem esquerda do Rio [Paraguaçu] em um valle cercado de morros e plantada nas abas da serra do timbóra que ai segue em direção do NE a Se tem fronteira a florecente povoação de S. Felix ligada por uma ponte de ferro.
As ruas são geralmente largas e tortuosas, sendo a maioria das casas sobrados de elegante construcção.
Seus principaes edifícios são: a Igreja Matriz, as Capellas de N. S. da Conceição do Monte,, de N. S. do Amparo, de N. S. d’Ajuda, de N. S. do Rosário [no atual Alto do Rosarinho], de N. S. das Neves, de N. S. dos Remédios, Ordem Terceira do Carmo e Convento do Carmo, Santa Casa de Misericórdia, Cimiterio Catholico e achatolico, Casa da Cammara e Cadeia, Selleiro e Chafariz.

POPULAÇÃO
Segundo o recenseamento de 1872 (página 9) é de 70 672 habitantes na cidade 9 270.
A [população] escrava pela matricula geral do corrente anno é de 5 572.

AGRICULTURA
[A] Lavoura consiste na cultura do fumo, canna d’assucar, mandioca, milho, feijão, café, arroz. Também cultiva algumas espécies de fructas caju, laranja, lima, abacate ananaz [abacaxi], melão, melancia, pinha, conde, romã, jaca, banana, maracujá, jaboticaba, guabiraba, abóbora e outros legumes.
A creação consiste em gado vaccum, cavallar, lanígero, cabrum e suíno. Há fazendas que se occupa d’esta industria.
A pequena creação dá para o consumo e suppre em pequena escala aos municípios vizinhos.

INDUSTRIA FABRIL
A industria fabril consiste no fabrico d’assucar, água-ardente, fumo, farinha da mandioca, e tapioca, obras d’olaria, como sejão tijolos e louças de barro.
Conta as seguintes fabricas: uma de tecidos em comandita com 50 teares de movimento hydraulico e a vapor [São Carlos, no Tororó].
Uma d’assucar por systema aperfeiçoado de uma Compª Inglesa com garantia do Estado de 6% sobre o capital de 800:000$000 [oitocentos contos de reis].
Treis para refinação de açúcar.
Uma de colla e treis de pólvora.
(página 9) Oito olarias. Quatro serrarias hydraulicas. Algumas de fabricar água-ardente e assucar de diversos particulares. E 3 de sabão.
Para fabricar charutos tem 8 das mais importantes, alem d’outras que fabricão em pequena escala, cujos productos gosão do milhor conceito no Império e Estragrº.
Tem 6 para preparar o fumo em mangote [fumo de corda].

COMMERCIO
Exportação principal assucar, fumo, café, aguardente, farinha de mandioca e tapioca, arroz, feijão, milho, charutos, couros seccos e salgados, gado vaccum e lanigeros, telhas e tijolos.
Importação consiste ferragens, louças, vidros. Vinho, cerveja, carne secca, bacalhau, farinha de trigo, pannos, e outros objetos de fabricação estrangeiras.
Os gêneros são em geral exportados para a capital d’onde vem todas de importação, sendo este movimento feito por pequenos navios a vapor e a vella [saveiros], e pelo seu interior pela Estrada de Ferro Central, carros de bois e costas de animais.

INSTRUCÇÃO
Consta o Município com instrucção publica 10 escolas para o sexo masculino e 10 para o feminino e 3 mixtos.
Dois internatos para o sexo feminino.
Duas aulas sendo uma primaria e a (página 10) outra secundaria.
Tem 5 jornaes de publicação sendo um d’elles diária.

DIVISÃO ECCLESIASTICA
Pertence este Município ao arcebispado da Bahia, e se divide em 8 parochias sendo a de N. S. do Rosário incluída na cidade e creada em 1696 conforme já se disse.
A de S. Deus Menino de São Felix creada em 1857 fronteira a cidade a margem direita do Rio Paraguassú.
A de N. S. da conceição creada em 1847 e distante 12 kilometros.
A de S. Pedro da Muritiba creada em 1705 distante 4 kilometros.
A de N. S. do Bom sucesso e Cruz das Almas creação desconhecida distante 20 kilometro.
A de N. S. do Desterro do Outeiro Redondo creada em 1838 distante 10 kilometros.
A de S. Estevão do Jaquipe creação desconhecida e distante 50 kilometros.
A de S. Thiago do Iguape creada em 1608 distante 32 kilometros.

DIVISÃO POLICIAL
O município consta uma delegacia, 10 sub-delegacias e 250 quarteirões, d’estes 52 na cidade.

OBRAS PUBLICAS
Paço municipal e cadeia, selleiro, e 1 chafaris (página 11) por pessoa para vender agua, 50$000 por mascate de jóias, 5$000 aos que vender objectos de armarinho, 10$000 por estribaria, cocheiro e pasto cercado, 10$000 por licença de tirar peixe do Rio, 3$000 por licença para vender drogas e armas, 10$000 por fogos artificiaes nas praças publicas, 10$000 para armar barracas nas feiras, Rendimentos da aferição, selleiro, multas e infracções: sendo sua receita annual media de 400:000$000.
A colletoria geral 32:000$000 e a provincial.

CURIOSIDADES NATURAES
No Rio Paraguassú e a 10 kilometros a cima d’esta cidade existe uma queda d’agua de 10 metros de altura e passa todo seu volume por entre rochas com a largura de 3 metros formando uma curiosidade natural e uma linda e espumante cachoeira com o nome de estreito, d’onde parece tirar esta cidade o seu nome.

DISTANCIAS
Dista esta cidade da Capital da Província 78 kilometros.
A distancia das villas e cidades dos municipiosconfinantes são as seguintes:A Villa de ////s. Gonsalo dos Campos 26 kilometros ao Norte.
A Vila de Curralinho 56 kilometros ao Oeste.
A cide de Maragogipe 18 kilometros ao Sul.
A Cide de Santo Amaro 50 kilometro a Leste.
O município consta diversas estradas (página 11) de rodagem que partindo d’esta cidade entruncão nas dos Municípios visinhos e Centro.
Tem uma estrada de ferro (de 1m 06 de bitola) composta de uma linha principal que se dirige para o Centro com a diretriz de Oeste na distancia já de 253 kilometros, e um Ramal para a Cide de Feira de Sant’Anna na distancia de 45 kilometros e diretriz de Norte.
A sua ligação é feita sobre o rio por uma importante ponte de ferro de systema tubular e treeliça assente sobre 3 pegões e 2 encontras de alvenarias com 90 metros de vão livre cada um.
Esta estrada com a designação de Brasilian Imperial Central da Bahia Railway pertence a uma companhia inglesa com assionistas Brasileiros, tendo a quantia do Estado de 7% sobre o capital de 13:000:000$000.

Comentários

  1. Cacau :
    Brilhante ! Este é o caminho que deves seguir. Um blog com informações bastante úteis. Esse post traz um bom resumo da história de Cachoeira, com a transcrição de um documento oficial.

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  2. Anônimo23:45

    Antonio Lopes Carvalho Sobrinho era o prefeito da Cachoeira em 1887?

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