CONDOMÍNIO GERA CONFLITO
ENTRE IGREJA EVANGÉLICA
E PROPRIETÁRIO DE TERRAS


A Igreja Batista Betel de Cachoeira está amargando um momento difícil com uma família que reivindica a posse da antiga “Chácara número 58 da Rua dos Artistas”, localizado na proximidade da Matinha e Avenida São Diogo, mais precisamente na imediação do Cemitério dos Protestantes, também conhecido como Cemitério de Alemães e Cemitério de Estrangeiros (foto). Parece que o proprietário da “chácara” doou as terras para a Igreja Batista e esta, por sua vez, teria loteado e colocado à venda cada gleba pela bagatela de R$ 10.000,00. Inconformado com o destino dado ao objeto doado (pensava ele que seria ali erigido um templo, um refúgio espiritual?), o proprietário arrependido quer sua propriedade de volta. Dado é dado, de modo que a Batista tesou para não devolver o bem adquirido por doação graciosa. Diante do 'tesamento religioso', o proprietário partiu para tudo ou nada: já falou na rádio que quer as terras de volta, que o pastor o enganou, e outras queixas. Não sei, mas dizem que todo dia aparece um ebó no local, logo exorcizado com orações e louvores. “É Cachoeira, Pai Tomás, é Cachoeira!”.
Em meados do século XIX a atual Avenida São Diogo e adjacências faziam parte das terras do pasto do Curral Novo, construído na década de 1890 onde atualmente é o sofisticado Condomínio 25 de Junho, antigo Matança, ou Baixa da Olaria, na zona dos Três Riachos. O local, pois, era domínio de caboclos Boiadeiros vindo da Aruanda, como reza a tradição oral e a profusão de manifestações culturais populares de cunho afrotupi no local. No início do século XX (desculpe o leitor: propositadamente não vou precisar datas nem fontes) Marcolino Cardoso Cazumbá, parente de Dona Filhinha, Dona Delecy, Elias Cardoso (conhecido como Elias Pacopaco), entre outras pessoas nobres de Cachoeira, arrendou as referidas terras para e"explorar minérios," ou seja, para instalar uma olaria para fabricação de tijolos e cerâmicas utilitárias. Daí o nome Baixa da Olaria, Entendeu porque Dona Narcisa, irmã da Boa Morte, era conhecida como Filhinha das Panelas?
Na década de 1930 as terras da Avenida São Diogo pertenciam a Dona Felinta Chagas Vieira. No final da década de 1930 Porcino José de Souza as comprou para logo vender à Suerdieck. A chácara iniciava na Rua dos Artistas, na época número 12, e possuía "casa de duas portas laterais, dez janelas de frente, duas salas, sete quartos, sala de jantar, cozinha, banheiro", que foi transformada em armazém de fumo. Além da casa transformada em armazém e agora em templo religioso Batista, o imóvel possuía quintal “com um terreno no mesmo lugar com quarenta e cinco braças de frente, trinta e duas de fundo, com benfeitorias e mais um pedaço de terra nos fundos da casa, ora vendida com cerca de quarenta tarefas de terras que houve o seu falecido marido Carlos Silvestre de Souza Farias por compra [em 1907] à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição do Monte desta cidade”.

OS PRIMEIROS MORADORES DO LOCAL
Apoiado no documento, às terras de Dona Felinta faziam parte a atual Avenida São Diogo, Matinha e a Rua Stela, “e que esta área [a Avenida São Diogo] já tem casas edificadas o cidadão Ricardo Machado, Jardelina dos Santos, João das Matta, Maria Dionísia do Espírito Santo, Angelita França, Cândida França, Francisco Pereira Lima Filho, Maria Julia Conceição, Domeciano Dias, Antoninha de Tal, Pedro Alves da Silva, Francisco Sales da Silva, Salustiano Ferreira Matos, Benedita Rocha Passos, Lindaura e Lourival, filhos de Joel Pereira, Maria Flora Pereira, Francisca Maria Cruz, Marcolino José dos Santos, Justino Pereira Suzart, João Pereira conceição, Lourenço Antonio Santos, Ignácio Bispo dos Santos, Maria Francisca do Amor Divino, que pagam 10 mil reis anual de foro”. Alguns dos moradores citados ainda continuam residindo no local, e outros, já falecidos, têm suas residências ocupados por parentes. Segundo Dona Ledinha, filha de Ignácio Bispo dos Santos, conhecido como Cabocão do Açougue, a maioria dos moradores da São Diogo era açougueiros. Havia também babalorixás e iyalorixás. “Todos eles criavam gados e pequenos animais – bodes, ovelhas, aves - nas terras de dona Porcina” algo conhecido como “fundo de pasto”, ou seja, terras coletivas utilizadas para criação de animais.

Comentários

  1. Anônimo14:30

    É isso aí, cara!!

    Deixe as picuinhas pessoais, políticas e religiosas de lado, e mostre o talento e a competência do historiador.

    Parabéns !!

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  2. Anônimo01:05

    Parabéns mais uma vez, o Sr. é um super profissional!

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  3. E agora? Como é que vai ficar?

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