TRILHOS URBANOS
DE CACHOEIRA



Concomitantemente à construção da Ponte Pedro II e a nunca citada estação ferroviária, implantava-se em Cachoeira os Trilhos Urbanos, ou, como preferiam alguns, os Vehiculos Econômicos. Em 21 de março de 1871, o inglês William Scott Smyth, e os portugueses Vicente de Farias e Joaquim Pacheco de Miranda apresentaram à Câmara de Vereadores plano dos ramais - ou das linhas - dos bondes puxados a cavalos que ligavam a “Rua de Cima” com a “Rua de baixo”, ou a zona da Estrada de Ferro com a zona da Navegação Bahiana. Os ramais eram dois.
O primeiro ramal partia "do barracão do guindaste de ferro no caes da praça da Alegria (veja foto acima), na cidade de Cachoeira e costeando o caes fazendo volta a direita, passando o mercado da [rua da] Alegria na direção Nordeste e entrando no beco da Manga e dahi voltando a esquerda, e entrando na rua Formosa tomando direção norte, e acompanhando a dita rua terminara [terminará] na Estação em frente do becco do Matadouro".
O guindaste de ferro em referência ainda se encontra no mesmo lugar; já o barracão é, depois de várias mudanças na sua configuração, o atual Terminal Rodoviário. Os "Vehiculos" ficavam estacionados entre o dito barracão e a balaustrada do largo onde estava sendo construída a nova estação ferroviária. Dali partiam, contornando o Mercado de Cereais (a sede do tiro de Guerra), em direção ao Beco da Manga (veja foto), seguindo pela atual Rua Irineu Sacramento, entrando na Travessa dos Amores, estacionando na rua entre o Galpão de Albino Milhazes, na estação ferroviária, e o prédio do Asilo das Sacramentinas, conhecido como beco do Matadouro, ou da Charqueada.
O segundo ramal "partia do caes junto ao trapiche dos vapores da Companhia Baiana, e costeando o caes em direção Nordeste, e fazendo uma curva para a direita, e entrando no Largo do Caes e dahi voltando à esquerda, e entrando na rua de Baixo acompanhando essa rua na direção do Norte e voltando a direita, entrando na rua d’Entre Pontes e acompanhando essa rua na direção Nordeste e continuando pela mesma [rua] das Flores e dahi á rua Formoza se unirá com o primeiro ramal no lugar mais conveniente perto do becco da Manga".
O segundo ramal seguia pelo cais de Maria Alves, entrando na Rua do Alambique (Paulo Filho), seguindo pelas atuais ruas 13 de Maio, Ruy Barbosa (Entrepontes), seguindo pelas Ruas 13 de Março, Prisco Paraiso, Lauro de Freitas, Irineu Sacramento, até a Rua do Matadouro.
Esses ramais estavam organizados para transportarem produtos provenientes de Salvador com destino ao sertão por via ferroviária, e transportar produtos proveniente do sertão por via flúvio-maritima, para Salvador. Os ramais estavam também estrategicamente organizados para passarem pelas zonas comerciais, atendendo assim as necessidades do comércio local. Dezenas de ganhadores africanos e afrobrasileiros garantiam seu sustento em atividades em torno dos Vehiculos Economicos, gerando muitas vezes disputas e conflitos.
No jornal O Americano de 22 de março de 1878, por exemplo, uma nota dizia que :
"Diariamente nas partidas e principalmente nas chegadas dos trens, origina-se, na frente da Estação da Estrada de Ferro, grande ajuntamento de ganhadores, entre os quaes se formam conflictos, á porfia da qual será o feliz que possa obter um frete. Seria de alta conveniência estabelecer-se uma estação policial n’esse posto, assim obstar-se-hiam essas continuas desordens e as de que é foco a rua das Flores, onde diariamente há grande transito de gente de todas as classes".
Os Vehiculos Economicos deixaram de circular no final do século XIX. Em substituição a eles surgiram as carroças dirigidas por negros libertos que trabalhavam para empresários carroceiros de sobrenome nobre. Atualmente as carroças representam um econômico meio de transporte de volumes pesados e, que coincidência, ficam estacionadas na rua das Flores, o lugar mais tenso do comercio cachoeirano desde o século XIX. Tomara que o engenheiro de tráfego cachoeirano não implique em acabá-los.

Comentários

  1. Anônimo17:55

    Residi mais de quarenta anos em Cachoeira e nunca soube ter existido "bondes puxados a cavalos". Cacau descobre coisas ...

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  2. Sabe, seu Luiz, escrevi um texto que relatava os detalhes de morar no interior. E é isso, conviver com essas coisas, com a simplicidade. Jegues puxando carroças, pessoas que vem e vão com esse meio de transporte que em muitos lugares desaparecem - e se aparecer será um fato curioso de notícia de jornal. Aqui é tão normal para nós que nos acostumamos.

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