SUÍNOS AMEAÇAM FESTA
DA IRMANDADE DA BOA MORTE



O secretário de saúde da nossa erótica jungla anunciou ontem, 23, na Parceira FM, que a PMC não promoverá o festejo “profano” da sagrada festividade anual da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e Glória. Em outras palavras: a PMC não vai promover mais o puteiro como soe promover em dias de festas religiosas, comemorações cívicas, o escambau. Na cabeça iluminada dos pensadores da PMC, festejo profano seria armar um cacete armado dotado de barracas de cervejas, bancas de churrasquinhos de gato, capetas e cachorros quentes no antigo Cais do Alambique, regado a pagode e arrocha ao gosto da turma dos mal resolvidos. Ninguém, nenhum vivente com espírito de compaixão ensinou ao excelentíssimo e a sua turma que pro fano significa, ipse litteri, “aquilo que está para o - ou diante do - sagrado”. Sagrado, ou sacralizados, eram as pessoas que estavam dentro de um templo, e profanos aqueles que estavam fora do templo, diante dele, embora estivessem participando da cerimônia religiosa. Profano nunca foi manifestação de putaria, esculhanbação, secretário.

A justificativa do desincentivo (o neologismo é meu) é esfarrapada: a infeliz gripe A1N1, a gripe do porco, como diz minha vizinha. Em verdade, parece que o secretário foi se desculpar, usando a gripo A' como justificativa, em nome de excelentíssimo maior, que não haverá “festa” porque a PMC está sem dinheiro, sem moral, perdida, foi advertida a não promover bagunça, e não sabe como participar da festa da agora Irmandade da Boa Morte monumento imaterial baiano. A PMC arriscaria colocar pagode e arrocha numa festa dessa magnitude, excelentíssimo senhor secretário de cultura?

A medida preventiva anunciada pela secretaria de saúde também não convence. Não será a não promoção do puteiro oficial costumaz que vai impedir que o vírus A1N1 se prolifere na erótica e contagiosa jungla. Se ele vier encubado (como muitos aqui) nas fossas nasais de turistas argentinos, mexicanos e de super lindos negros norte-americanos fortes com brincos de ouro nas orelhas (viva Caetano Veloso), e se espalharem em insistentes espirros internacionais, não será a não-realização do evento profano oficial que vai impedi-lo de alojar em nossos frágeis pulmões. Eles, os vírus, escolherão os pantanais, bares, bibocas, cacetes armados, restaurantes, cafés, casas de licor, pontos de tráfico, as meninas que dão a 0800, as meninas que cobram dez por um boquete, etc, que não foram advertidos e advertidas do perigo que rondam as esquinas de nossa erótica cultural e monumental jungla que Nossa Senhora nos dê uma boa morte se esse trágico presságio ocorrer amém.

A doutora especialista falou acertadamente das medidas preventivas: higiene absoluta. Ela falou que práticas higiênicas é coisa cotidiana, e não eventual, e que, se seguida a risca, a gripe não pega. “Cagou, gente, lava as mãos bem lavadas”, advertiu com ar professoral. A doutora sugeriu também que seria de bom tamanho os festeiros sagrados (ou seja, os não “profanos”) levar consigo uma garrafa de álcool gel 70 graus para lavar as mãos todo vez que apertar as de um estranho, principalmente turista, ou com cara de turista, ou com cara que viaja de avião. Uma boa sugestão também seria colocar álcool gel em tubos de desodorante Avanço e sair aspergindo para frente e para os lados enquanto estiverem caminhando em meio a aglomeração das procissões. Pronto, a desgraçada e infeliz gripe terá chances mínimas de contagiar o povareu. A medida é unicamente preventiva e imune só mesmo o pessoal do beco da morte, por razões óbvias. Não existe vacina para o mal, nem expectorante, chás, rezas, exorcimos, palavras mágicas, etc. Mas já tem quem afirme categoricamente que Omolu, o senhor das doenças e das pestes, principalmente de Pandemia, que a gente acha que é o nome bonito da infeliz, alafiou que é dita cuja não vai pegar ninguem aqui, e sim gente de fora, se Deus quiser (e Ele quer!). Não existe cura, sim senhor, mas no pantanal da favela ali perto já encontraram um remédio que previne eficazmente: conhaque de alcatrão de são João da barra, mel, folha de carro santo. O vírus morre na hora sem nem gritar Jesus. É tiro e queda.

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