PATRIMÔNIO CULTURAL
UM BOM EXEMPLO
Marcos Paulo de Souza Miranda
Coordenador da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais

Muito se fala sobre a possibilidade de o patrimônio cultural, quando bem gerido, ser boa alternativa para o desenvolvimento econômico e social de cidades desprovidas de perspectivas de grandes empreendimentos, mas potencialmente ricas em atrativos turísticos, tais como sítios arqueológicos núcleos históricos etc. Entretanto, na maioria das vezes, essa afirmativa se resume ao mero discurso vazio e padece de exemplos concretos e contundentes sobre a efetiva possibilidade de o turismo transformar, para melhor, a realidade social. Talvez decorra de tal fato a corriqueira descrença da comunidade em relação à assertiva de que vale a pena preservar.

Recentemente, durante o Congresso Internacional de Arte Rupestre, com mais de 800 participantes de 40 diferentes países, tive a oportunidade de presenciar na pequena cidade de São Raimundo Nonato, no sertão do Piauí, a mais de 500 quilômetros de Teresina, o maior e mais vigoroso exemplo de como a proteção do patrimônio cultural, associada à inserção social, pode transformar a realidade.

O conjunto de sítios rupestres daquela região começou a ser estudado pela equipe da arqueóloga Niéde Guidon há mais de 30 anos. No início, a população via com indiferença o trabalho daqueles ‘forasteiros’, que passavam meses nos boqueirões fazendo pesquisas sobre coisas aparentemente sem qualquer valor. Mas, com o tempo a importância científica da região, onde foram encontrados os vestígios mais antigos da ocupação humana nas Américas, foi reconhecida pelo poder público, que ali criou o Parque Nacional da Serra da Capivara. Hoje, conta com conjuntos tombados pelo Iphan, reconhecidos pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade.

Paralelo ao reconhecimento público, a Fundação do Homem Americano - Fundham, uma entidade sem fins lucrativos criada para apoiar as ações de conservação, deu início a um trabalho de inserção da comunidade no processo de preservação e promoção turística do local. Homens rudes do sertão se transformaram em guias e operários das equipes de escavação; mulheres foram empregadas na recepção e controle de acesso de turistas ao parque; jovens receberam aulas de como produzir artesanato se valendo de materiais rústicos da região; foi fomentada a produção de peças cerâmicas decoradas com motivos rupestres que alcançaram alto nível de qualidade e, hoje, são enviadas para lojas de todo o Brasil e mesmo do exterior; pousadas, restaurantes e lojas de suvenires começaram a surgir e a aprimorar seus serviços para bem receber os turistas. Hoje, não há na cidade um único cidadão que não reconheça a importância de cuidar de seu patrimônio arqueológico e, por isso, a comunidade se transformou em sua maior e mais aguerrida guardiã.

O bom exemplo já se irradia para outras cidades próximas, que também têm potencial para o turismo e o Governo do Piauí implantou recentemente a PM Tur, uma companhia da Polícia Militar especializada na proteção turística, equipada com modernos veículos 4x4 e integrada por policiais treinados para atender adequadamente os visitantes, inclusive falando outras línguas. Eis um belo exemplo de como a integração de ações do terceiro setor, dos cidadãos e do poder público pode preservar a nossa cultura e mudar a realidade do nosso país.

Jornal Estado de Minas - 07/07/2009
OPINIÃO

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