As 200 irmãs da Boa Morte

Os historiadores cachoeiranos afirmam categoricamente que a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e Glória de Cachoeira foi fundada em 1820 e que houve um tempo em que ela reuniu em torno de 200 membros. Esse blogueiro metido a historiador e pesquisador discorda. A Irmandade da Boa Morte, como é mais conhecida, foi organizada na porção do baixo rio Paraguaçu e sediada em Cachoeira por volta de 1870. Ela se consolidou como uma instituição religiosa feminina no âmbito do movimento abolicionista cachoeirano. Ela representa, pois, a participação feminina no macho movimento abolicionista e na institucionalização do candomblé.

Já os duzentos membros nunca passaram de trinta irmãs. A confusão propalada pelos eminentes e relevantes historiadores cachoeiranos resulta da não percepção daquilo que os especialistas chamariam de lapso de memória e esquecimento presente na tradição oral sobre a referida instituição religiosa. Diferente do que ocorre atualmente, a Irmandade da Boa Morte reunia em torno de si dezenas de mulheres proeminentes – as “negras do partido alto -, mas sem vínculo efetivo com a instituição, e sim um grupo de formação de eventuais comissões de devoção que coadjuvavam na realização dos festejos anuais. Eis um caso exemplar.

Em 1883, um jornal soteropolitano divulgava numa edição a comissão responsável pela festa do ano seguinte, citando os grupos cujas componentes tinham seus nomes antecedido do designativo 'dona' (O termo 'dona' é originalmente um título representativo de status daquelas que possuíam linhagem, origem familiar, não sendo atribuída à mulher oriunda da escravidão).

Noticiava o referido jornal a “Eleição das juizas e mais empregados [envolvidos] que hão de festejar a Virgem Nossa Senhora da Boa Morte no anno de 1884”, seguido do nome, sem o designativo 'dona', da provedora Firmina de Oliveira Figueiredo, da tesoureira Petronilla Firmina, da escrivã Maria Benedicta de Oliveira e da procuradora-geral Maria Rosa da Encarnação.

Em seguida são apresentadas as juizas da festa, as 'donas' Francelina Muniz Cardoso, Emilia Gonçalves Lima, Lucia Espínola de Assis e Maria Joaquina de Santana; e as juizas de devoção, as também donas Silvana Aquillina da Silva, Maria Magdalena da Silva, Avelina Gomes de Souza, Clotildes de Santana, Fausta Luiza da França, Graciliana Pereira Guimarães, Ana Rosalva da Silveira, Ambrosina Dias d’Affonsecca Santos, Julia Amélia dos Santos Jacomim, Juliana Maria Belchior, Estelina Maria Vieira, Floriana Máxima Teixeira, Maria Petronilla Dias do Nascimento, Maria Adrelina, Adelina Carolina Ribeiro, Mamédia Cardoso (ou Pardoso), Alexandrina Maria da Costa e Maria da Conceição.

O que o documento revela é que além dos membros formais que compunham o corpo da Irmandade, havia grupos de devotas que ajudavam na realização da festa, conhecidas como juízas, ou mordomas. Quem eram essas devotas? Parecem ter sido mulheres ingênuas (nascidas livres) ou libertas que adotavam o sobrenome da pessoa de quem sua mãe foi escrava, ou elas mesmas escravas, conquistando proeminência no meio social da qual eram originárias, assim como de outros segmentos da sociedade.

Comumente essas mulheres ligavam-se a essas famílias por fortes laços de afinidades e dependência, e essas famílias a elas, evidentemente, por relações paternalistas e de legitimação de poder. Sendo uma irmandade ligada a mulheres negras pertencentes a uma elite social e econômica, ela era e é ainda uma instituição religiosa de representação de status e isto é visível nos gordos banquetes oferecidos em suas festas anuais.
Seria muito interessante que os especialistas em Irmandade da Boa Morte (aqueles que reivindicam a posse do saber histórico da instituição e que agora estão muito afoitos pelo fato dela ter sido elevada ao status de monumento imaterial baiano) busque recuperar elementos significativos perdidos de sua estrutura e ritualidade. A Irmandade da Boa Morte deve ser reconhecida como uma instituição político-religiosa importante, que se configura na sua participação no processo abolicionista (veja, por exemplo, que a Irmandade se estrutura a partir de uma promessa feita a Nossa Senhora de reverenciá-la mediante a libertação - ou abolição - da escravidão) e na institucionalização do candomblé no Recôncavo baiano. Não importa quantos membros ela possuía ou se ela tem trezentos anos de fundação.

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