OS MÓVEIS DOS NAGÔS

Quase cinqüenta anos depois de a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Sagrado Coração de Maria do Monte da Rua Formosa – a Irmandade dos Nagôs – ter construída a sua igrejinha e cemitério para sepultamento de pretos nas terras doadas por José Antonio Fiusa da Silveira (que era proprietário das terras urbanas de Cachoeira, cujos parentes atuais são a professora Railda, moradora na Pitanga de Cima, e a esposa de Jorge Seco), a Ordem Terceira do Carmo construiu, vizinho a ela, o seu cemitério para sepultamento de brancos. Nesse tempo as terras do Rosarinho pertenciam já à referida Irmandade dos Nagôs por compra feita ao sogro de Silveira Fiusa, José Carneiro Sobrinho, na época procurador municipal. Propriedade particular, o sítio era protegido por um largo portão, que ficava junto a uma cruz na subida da ladeira pelo Curral Velho, que mais tarde foi essa cruz protegida pelo beato Maurício Rezador, onde foi construído um oratório para suas atividades religiosas. Na década de 1970, o prefeito barata tonta, Ari Chambão, instalou iluminação pública no lugar, utilizando como postes os trilhos retirados da antiga linha de trem da Rua da Feira, consolidando o processo de favelização que já vinha ocorrendo desde a década anterior.

Entretanto, eis que numa articulação cheia de magia, gatunice, característico da esculhambaria da “elite” social local, até pouco tempo, coisa de até dez anos atrás, a Ordem Terceira do Carmo cobrava anuidade por ocupação de terras, denominado foro, dos pobres moradores da localidade, alguns dos quais membros da Irmandade. Entendeu a jogada? A Ordem Terceira do Carmo cobrava foro de uma coisa que não lhe pertencia. Supostamente a justificativa era a de que a Irmandade dos Nagôs foi sediada por longos e penosos anos numa saleta úmida e escondida do conjunto do Carmo; portanto, era uma irmandadezinha de pretos analfabetos pertencentes a ela, a majestosa Ordem Terceira do Carmo. Sendo sua propriedade, os bens a ela pertencentes pertenciam igualmente à Ordem. Eta lugarzinho pra ter gente safada!

Todo mundo sabe que a igreja dos Nagôs não serve para nada. Fica ali entregue às baratas, embora protegida pelos eguns dos proeminentes sacerdotes e sacerdotisas do candomblé, ali sepultados. Quando foi anunciada a sua reforma pela Monumenta, alguns apressados cuidaram de retirar o que sobrou de bens de relativo valor. Retiraram o oratório que estava jogado no interior do templo, e o armário, que se encontrava em bom estado de conservação (analise as fotos). Quem retirou os mencionados móveis da igreja foi o então prior da Ordem Terceira do Carmo, Jomar Conceição. E aí, Jomar, cadê os móveis? Foram reformados? Onde eles estão? Eles foram devidamente protegidos e catalogados como bens públicos? E o sino que fivava no interior do cemitério que você guardou para evitar roubo?




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