DE BALNEÁRIO A FAVELA




Na região da Vila da Cachoeira encontram-se

paisagens que, pelo viçoso verde dos outeiros,

pelo alternar dos arbustos e pelos muitos

aspectos do

magestoso rio, são de particular encanto.

Dois pequenos riachos,

Pitanga e Caquende, que correm rápidos

pelos morros

abaixo, oferecem banho restaurador à sombra

de frondosos loureiros, ou idílicos

retiros, ao lado de cascatas espumantes.

Carl Frederick von MARTIUS. Viagem pelo Brasil.

3ª edição. Melhoramentos/IHGB/MEC. São Paulo, 1976. p. 184.


A narrativa do viajante-naturalista bavaro von Martius, que esteve em Cachoeira em 1817, define a zona do Caquende como um balneário. Caquende significa exatamente isso: lugar onde se toma banho, estância. Não interessou a Martius registrar os moradores do lugar. Talvez em 1817 ainda não existisse um núcleo residencial formalmente organizado, e sim casas dispersas e toscas onde residiam velhos índios e africanos e negros libertos que serviam à Ordem Terceira do Carmo.

O núcleo residencial formalizou na pós-abolição, no tempo áureo da indústria fumageira. O núcleo concentrava-se na atual Praça da Bandeira e, dela, como uma oca, convergiam ruas de poucas residências, estação de pesca, estaleiro onde se construíam embarcações de pequeno calado, caieira, alambiques, fábrica de pólvora.

Na década de 1960-70 certamente já não mais existiam “frondosos loureiros”; existiam, porém, “idílicos retiros” e o pequeno riacho Caquende ainda oferecia banhos restauradores. Foi nesse momento que o Caquende iniciou o processo crescente de degradação. O saudoso cidadão Geraldo Simões, em meio às suas confusas administrações, promoveu toda sorte de crimes ecológicos no lugar. Na sua gestão houve invasões de espaços públicos para construção de casas nos leitos do riacho Caquende, entre outras agressões. O prefeito Dinho no Kur, outro louco, não ficou atrás.

Enquanto o populus invadia os espaços públicos com a anuência do prefeito e dos vereadores panacas, bananas, o Caquende ostentava (e ainda ostenta) o título de lugar insalubre. Crianças, adolescentes, jovens adultos e adultos velhos, como a família Adams, tinham, e ainda têm, dentes amarelos e leitosos, barrigas grandes e pernas finas, cabelos lisos e tez marmorizada devido a shistossoma e outras verminoses que transitam impunes nas cloacas nascidas do antigo riacho, quintais, sanitários, becos, ruas, bares...

Para completar o quadro dantesco, o excelentíssimo, que se gaba o melhor de todos os prefeitos de Cachoeira (hahahahah), feito o saudoso Geraldo Simões e Dinho no Kur está fingindo de cego, surdo e mudo, permitindo o maior de todos os crimes ecológicos praticados no balneário de Martius, o Caquende. Ali está sendo construída a Favela do Riacho, para não plagiar a Favela da Maré. Sim, amado leitor, dentro do riacho Caquende, cerceando o curso natural das águas, está sendo construída casas, cujos alicerces são obturados em cavidades feitas nas pedras polidas pelo acariciar eterno das águas sobre sua face, onde crianças brincavam de escorregadeira.

Que pena! O riacho Caquende foi o aquário onde nós cachoeiranos aprendemos a nadar. Ali imaginamo-nos Tarzans que, com uma faca presa nos dentes, vencíamos o maior jacaré do mundo. Ali caçamos, fizemos ‘ousadia’ no mato com a menina que lavava roupa com a mãe, colhemos ingá, pescamos bobós, jundiás, moréias, tomamos carreira de cobra, comemos melaço de cana com pelo de ratos no alambique de Edgar Rocha.

O que deveria ser preservado é pelas autoridades locais, estúpidos e imbecis prefeitos e vereadores, incentivado a sua destruição. Cachoeira não é um municipiozinho, desses que idiotas com alguns reais no bolso tomam de assalto com uma quadrilha organizada e se tornam representantes de tudo. Cachoeira é uma marca, um símbolo! É preciso conhecê-la para administrá-la, e para conhecê-la é preciso estudá-la em todas as suas nuanças. Utilizar seus recursos financeiros para fazer proselitismo através de questionáveis inaugurações autopromocionais é crime da alçada da Polícia Federal. É preciso destinar os recursos públicos em obras que promovam efetivamente o desenvolvimento sócio-econômico do município. É preciso políticas públicas voltadas para o bem-estar social. Permitir a construção de casas dentro de um riacho, além de associação em um crime ecológico, implica também em promover problemas de saúde que vão refletir gravemente em toda a população do lugar. O Caquende é um lugar que deve ser protegido pela sua importância histórica, cultural, ecológica e turística. Em vez de transformá-lo numa zona doentia, seria interessante, por exemplo, transformar a antiga Fazenda Caquende num parque ecológico florestal, cujo nome seria – Parque Ecológico Von Martius, onde seriam recuperados os “idílicos retiros” (que ainda existem), os “frondosos loureiros”, e jaqueiras, ipês, jacarandás, etc., encontráveis na Embrapa de Cruz das Almas. Queria ver meu neto Lázaro brincar de Tarzan no poço do Jacaré, queria muito!

Comentários

  1. Por não ser no centro da cidade, muitas pessoas não se dão conta do fato que se sucede.
    Daqui a pouco vai acontecer o que aconteceu aqui no Riacho Pitanga, que construíram o calçadão que até hoje não sei para que serve. Aliás, serve de "campo de futebol" e pista de bicicleta para os habitantes da cidade.
    É lamentável ver o ocaso diante de nós!

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  2. Pois é, Loly. Você chamou a atenção para um detalhe que me passava despercebido;: aquela laje ali no Pitanga. Vou fazer um comentário sobre aquela obra. Obrigado. sugira mais coisas.

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  3. É Cacau, na época fiquei muito chateada com o ocorrido. Fico indignada com o descuido do Riacho Pitanga - que está sendo degradado e assoreado no seu percursso -, pois já foi e é ainda uma fonte de renda para muitos.
    Não sei se você sabe, mas a dona EMBASA está com um projeto de construção de um pinicão do devido riacho. Imagina se isso acontece?
    Gostei do blog por mostrar a realidade que se encontra nossa cidade. Ela precisa melhorar e muito. Estou nessa luta também, pois amo Cachoeira! Em breve darei novas sugestões. Abraços.

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  4. Anônimo21:36

    É por isso que os políticos e as fraldas são trocados pelo mesmo motivo..

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