BITEDÔ

Um dos mais significativos sítios culturais de Cachoeira está sendo invadido por casas de construções informais, ampliando o processo crescente de favelização da cidade. Refiro-me ao Bitedô, ou Batedor, como é mais conhecida aquela parte ali na imediação também conhecido como Alto do Cruzeiro, onde a Embasa trata a água que bebemos. Bitedô é uma palavra que representava uma das formas como africanos nagôs se autodefiniam. Além do termo auto-adscritivo, tedô era também um termo que representava uma “nação” de candomblé: a “nação” nagô tedô.
O sítio Bitedô no início do século XIX pertencia a José Antônio Fiusa da Silveira. Este era proprietário das terras urbanas de Cachoeira, como já foi mencionado em outra matéria neste blog, e, em 1822, exercia função de sargento-mor das milícias cachoeiranas, destituído depois das escaramuças do dia 25 de junho por traição à pátria. Em 1843, o sítio foi vendido ao africano Belchior Rodrigues Moura, pai de Zé de Brechó e Salacó. Ali, no tempo de Belchior Rodrigues Moura e sua esposa Maria Motta, realizavam-se cerimônias religiosas de cunho africano dedicado à divindade Azonsur (Obaluaiyê), no mês de outubro, segundo registros orais. Foi a partir desse culto que originaram o terreiro de candomblé jêje mahi Zô Ogodô Bogum Male Seja Hundê, conhecido como Candomblé de Ventura, fundado por Zé de Brechó e Ludovina Pessoa e, de seus membros femininos, a Irmandade da Boa Morte.
Atualmente, na parte onde existia o referido culto a Azonsur é utilizado como um santuário do povo-de-santo de Cachoeira. Carregos de axexê (axexê é uma cerimônia fúnebre), erupins (erupim é uma coisa que se faz), etc., etc., etc., são depositados, depositados solenemente, arrumados como se arruma altar de santo, os fundamemtos de quem teve e quem tem kerekekê e vão colocar ali suas coisas quando subirem para o lado direito de Deus e do Espírito Santo, porque o povo de candomblé é também filho de Deus. No túnel e no viaduto ferroviário têm coisas importantes “plantadas” por africanos e antigos babalorixás e iyalorixás. Chiquinho de Babá, pai de Candido Xavier, nosso Tamba, tinha candomblé ali em cima do túnel.
Essa localidade rural urbanizada, ou urbana ruralizada, deve merecer tratamento especial por parte do poder público. Em vez de construção de praças e jardins dentro do mato, que são obras de péssimo gosto, o local deveria ser tombado como um sítio cultural. Se se pensar em termos de movimentos sociais, reparação étnica, políticas públicas, o Bitedô deve ser considerado uma área quilombola urbana documentalmente comprovada, portanto merecedora de benefícios especiais do governo federal. Esse humilde blogueiro sugere que o Bitedô seja considerado um lugar sagrado e destinado ao povo de santo e que, assim como anualmente é realizado a festas das águas no rio Paraguaçu, que o povo-de-santo de Cachoeira organize também a festa dos ancestrais no Bitedô. Fica aí a sugestão para É-Cabeção e os excelentíssimos edis não-evangélicos.

Comentários