"o nome da rosa"
Num ensolarado domingo, em pleno fim de tarde de verão, feito ratos de esgoto um grupo de gatos comandado pelo pastor de (lobos com peles claras de) ovelhas adentrou a biblioteca municipal de Cachoeira. Ardilosamente os desgraçados iniciaram o venenoso propósito de desmontá-la em detrimento do interesse comunitário que o equipamento representava. Desmontaram-na amontoando volumes e mais volumes de romances da literatura francesa, russa, inglesa, portuguesa e nossos brasílicos clássicos literários. Desmontaram referências bilbiográficas específicas da história da Bahia. Rasgaram mapas, monografias, fotogramas. Desmontaram tudo o mais. Cecílias Meireles, Jorges Amado, Cruz e Souzas, Machados de Assis, vários Carlos Drumond de Andrade foram amassados e pisoteados como se amassam papeis e pisoteiam inocentes insetos. Depois arremesaram às pressas e descuidadamente aquele monturo imprestável em uma caçamba enferrujada e úmida, e transportaram num breve percurso até o prédio onde morou o fundador dessa infeliz cidade, naquela cafua onde seres humanos tornados criminosos penavam seus crimes e hoje é a prefeitura municipal do município de Cachoeira. Sim, ali no Largo d'Ajuda. Desmontaram uma bilbioteca, destruíram livros, cercearam o direito ao conhecimento unicamente porque o pastor da igreja quis o imóvel, privilegiadamente localizado, para implantar um restaurante, dizendo ele com o nobre propósito de atender ao projeto de assistência social de sua igrejinha, cujo nome de fantasia do dito empreendimento social é o mesmo de uma rede de restaurantes de luxo, que ocupa lugares caros em shoppings, controlada religiosamente pela família de um desconhecido padre que exerce função de vigário em uma comunidade de miseráveis no sertão piauiense.
A bibliuoteca Ernesto Simões Filho, cujo nome é uma homenagem justa a um ilustre cachoeirano fundador do jornal a Tarde e ex-ministro da educação, foi um presente da Universidade Federal da Bahia à Cachoeira. À frente dela estiveram pessoas lindíssimas, como o professor Edvaldo Carneiro do Rosário, conhecido como Carneirinho. Nessa biblioteca li os clássicos da historiografia baiana, tornei-me historiador antes de chegar à universidade. Ontem, dia 20 de maio, estive em suas dependências e tive pena ao ver que nada, absolutamente nada sobrou daquele riquíssimo acervo bilbiográfico que conheci em 1975 e ainda manipulava-o em 1990. Ironicamente, ela fica junto ao gabinete do secretário de educação do município e em frente ao seu antigo abrigo (o prédio, amigo leitor, foi recuperado pelo IPAC para funcionar a dita biblioteca, veja aí a gravidade do crime), que agora é o mencionado restaurante. Um péssimo vizinho aliás, porque moscas que são atraidas pelos sacos de lixos lotados de alimentos deteriorados jogados na sarjetas para os cachorros voam para sua atual e indigna dependência, onde alguns estudantes desestimulados do Colégio Estadual da Cachoeira anotam em seus cadernos as tarefas escolares.
Ao vivenciar contrangido tal situação, penso na vida atormentada de uma pessoa que cometeu um assassinato. Para mim, a primeira coisa que ele pensa ao acordar é na cena do seu crime. Imagino: o que pensa uma pessoa que comete um crime tipo ao que foi relatado acima? Será que ele dorme em paz? Será que ele acorda feliz? Deus ouve suas preces? Alguem acredita no que ele fala? E uma pergunta: você, leitor, receberia uma hóstia, um passe, um óleo ungido, uma trombeta de Jericó, uma água do Jordão, um axé das mãos de um um padre, pastor, um pai ou mãe de santo, um espírita kardecista, um xamã que cometeu um crime de lesa-humanidade ou tirou a vida de alguem?

Comentários

  1. Anônimo16:25

    SÓ QUE QUANDO O CRIME ACONTECEU, UM RATO MAIS LADINO SURRUPIOU TUDO SOBRE A MEMÓRIA DE CACHOEIRA E TORROU TUDO EM MACONHA E CACHAÇA.
    ME BATA UM ABACATE, SEU HIPÓCRITA!

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