Prefeitura deseja a estação



Hitler era um megalomaníaco. Amava a paisagem urbana parisiense e os seus monumentais edifícios do tempo do Ancient Régime. Deslumbrava-se com as ruínas gregas e romanas da antiguidade clássica. O sonho do Império Alemão, de mil anos, que ele criaria com a vitória do nazismo, incluiria a edificação de gigantescos teatros, centros culturais, estádios para esportes, campus acadêmicos, que ele queria que um dia se tornassem ruínas para a fruição arqueológica, como são hoje contempladas as ruínas gregas e romanas clássicas. Adolf Hitler tinha uns parafusos a menos; o cabra era louco, embora não rasgasse dinheiro nem comesse bosta. Dizem que ele era um gay enrustido.

Dias atrás, o prefeito de Cachoeira, junto com alguns asseclas, perambulou pela abandonada Estação Ferroviária  da antiga Tram Road of Paraguassú, inspecionando o seu estado de abandono e feiura. Dizem que o prefeito vai desapropriar o imóvel, como tentou desapropriar o antigo Bar Imperial, de Ernani Melo, este para fazer o quartel da Milícia Cachoeirana (MC), e aquele para fazer ninguém sabe o que.

Bom, pelos asseclas acompanhantes, talvez nas salas e espaços da antiga estação ferroviária, onde muitas meninas foram inauguradas pelos seus respectivos voláteis namorados, sejam criadas escolas de dança, teatro, salas de cinema, sede de time de crianças, área de xôs, lojinhas e, quem sabe, um escritoriozinho, um comitê eleitoral, e assim vai, vai, até que o imóvel se transforme em alguma coisa lucrativa para os idealizadores do empreendimento.

É algo assim hitleriano. São tantos sobrados em ruína, tantos imóveis irregulares, com documentação irregular, sem documentação, na posse de tanta gente sem recursos, que tem despertado o olho grande de autoridades e gente metida a autoridade, que articulam, de forma sub-reptícia, um mecanismo para se apossar desse patrimônio. Algo assim: "eu quero tudo para mim! Eu quero Paris! Eu quero a Europa!". Coisa de doido.

No tempo do Mata Maroto, na década de 1820, muitos portugueses e marotos (brasileiros filhos de portugueses) fugiram para a Corte, no Rio de Janeiro, deixando para trás fazendas, escravos, casas e sobrados. No Arquivo Regional de Cachoeira são muitas as peças documentais do Juizado de Órphãos e Pessoas Auzentes. Escravos, fazendas e imóveis urbanos abandonados por portugueses e marotos terminaram anexados ao patrimônio do município, que mais tarde foram desviados para o patrimônio de intendentes, conselheiros municipais, autoridades, gente influente... Esta é a explicação para entender o porquê de algumas poucas famílias terem tantos imóveis em Cachoeira. Tudo conseguido de forma ilícita! Tudo na bandidagem, na sabedoria.

Nas décadas de 1940-50, André Fraga, advogado da família Ramos, de São Felix, era proprietário de aproximadamente 40 imóveis em Cachoeira. Correr de casas inteiro era seu. Esses bens ele legou a uma senhora, que ainda está viva e reside em Cachoeira, mas na época ela era era menor de idade. Os imóveis ficaram sob a guarda de um sabido comerciante local e do juiz de direito da época. Resultado: o magistrado e o comerciante dividiram os bens entre eles, e Dona Coisinha perdeu tudo. Perdeu sobrados suntuosos, dois deles vendidos à Sociedade Orféica Lira Ceciliana; perdeu correr de casas inteiro, o alguns imóveis que persistiram mantêm os parentes desse comerciante com o dinheiro de aluguel..
       

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